Aprendizagem breve

Não há como saber como e quando se vai aprender a felicidade. Não há como saber do momento certo em que o mundo roda e depois tudo parece afinal estar certo.

Sei que era uma tarde sem sol e que estava junto ao mar. Nem me faltava o cão, imagina. Talvez me faltasse um pensamento em coerência com todo o percurso que me levou até ali.

Depois? Depois acho que uma dessas máquinas, que são hoje já extensão do braço e do coração, emitiu um som. Do outro lado estavas tu. Assim, surpresa a irromper na minha vida. Assim, nascido do que li e do que aprendi contigo. 

Antes tinha dito que serias um caso raro de uma conjugação perfeita entre pensar e sentir num mesmo movimento. 

Quis o destino, e tu acreditavas que com o destino não se negoceia, que surgisses com toda a humanidade possível. Com a humanidade no seu estado mais desesperado e trágico. E, ainda assim, tanta vida a prometer futuro. Tanta vida a prometer uma felicidade que não sabia ainda.

Levaste-me a uma outra paisagem e a um outro mar. Levaste-me a outras pessoas, às tuas pessoas. Aqueles que amavas tão profundamente, porque sempre foi essa a medida do amor que sentias por tudo e por todos. Um amor profundo como só tu sabias e que se revelava no abraço inteiro que dedicavas aos teus. E uma pessoa sentia-se assim abraçada até o fundo e até ao fim. Sempre foi assim que me senti contigo. Mesmo no fim, o teu toque ainda era o mesmo, um toque tão terno, doce e intenso a uma só vez. Uma sinfonia de todos os instrumentos que o mundo pode engendrar para criar a música quando ela se faz narrativa certa.

A felicidade que me ensinaste é profunda como o mar, aquele mar onde te deixei e que aparecia nas fotos que tirámos juntos. Não poderia saber outro caminho que não fosse aquele que tu me ensinaste.

O mar em fundo, a vida em nós. O mar em fundo, e agora sei-o à espera da tua morte. E é difícil aceitar essa espera líquida.

Como imaginar que te levaria em braços numa outra forma e que regressaria à praia que percorremos e onde aprendi a tua velocidade lenta do fim. À praia onde o teu cansaço já não permitia que me acompanhasses à beira das ondas. Por isso, ficaste na sombra a ver-me na felicidade de um oceano que sempre foi o meu horizonte. Aprendia outro mar contigo, outra geografia, outro sentido, outra possibilidade de navegação. Assim, à vista, com o coração preso pelo vento e pendente da tua respiração. A ter medo que desaparecesses sem que estivesse ao teu lado.

Regresso agora a esse mar de mãos vazias, de corpo vazio, de coração vazio. Vazia até ao fundo mais fundo.

Esta podia ser uma história de amor. Esta é, sem dúvida, uma história de amor. Faltou-lhe apenas a duração. Faltou o tempo e com ele a vida toda que tu anunciavas contra a morte dentro da tua cabeça.