A viagem do louco

Vou contar esta história como se eu não fosse de cá e nada disto tivesse ocorrido aqui, na ilha da Madeira. Foi assim: Um amigo meu esteve internado há muitos anos numa casa de saúde – ou seja num manicómio – para fazer uma desintoxicação, porque era alcoólico e se continuasse a beber daquele jeito ia morrer em breve. O estabelecimento ficava num sítio altaneiro, com ampla vista sobre a cidade e o mar – estão a ver o estilo – e estava dividido em duas alas: a dos loucos brandos, onde se incluíam os toxicodependentes, e a dos loucos perigosos, que é como quem diz das pessoas verdadeiramente loucas.

Um dia – contou-me o meu amigo – trouxeram um tipo da ala dos loucos perigosos em passeio pela ala dos loucos brandos. Era um gajo que vivia fechado num quarto de borracha, para evitar que partisse a cabeça, pois costumava dar-lhe uns ataques de fúria e punha-se a marrar contra as paredes. Naquele dia, porém, parecia a pessoa mais serena e pacífica do mundo, pois andavam a testar nele uns medicamentos novos e fortes, ultramodernos. Era uma cobaia, sempre vigiado a curta distância por dois enfermeiros, como se vê nos filmes.

Quando o gajo passou pelo campo de jogos, saltou de repente para cima duma baliza e dali para o alto do muro, onde ficou dez segundos a agitar os braços, tentando ganhar equilíbrio, pois estava prestes a cair de costas, até que se agarrou ao arame farpado e deu um grito lancinante. Depois, sempre a gritar, pulou para o lado de fora.

Os enfermeiros que o acompanhavam não tiveram outro remédio senão encetar uma perseguição desenfreada, no que saltaram também o muro do manicómio como se fossem igualmente loucos e acima de tudo perigosos.

Avistaram-no ao fundo, no preciso momento em que ele pulava da ponte para o leito da ribeira e, sem hesitar, fizeram o mesmo, ficando logo encharcados, cheios de lama e lodo malcheiroso.

– Puta que pariu! – Disse um dos enfermeiros.

O outro não abriu a boca.

O louco – contou-me o meu amigo – correu uns dois quilómetros pela ribeira abaixo. Depois saltou para a margem esquerda, atravessou um poio de vimes e galgou dois ou três socalcos de semilhas, acabando no quintal de uma casa, onde estavam duas mulheres a bordar e quatro crianças a brincar com um cão e toda a gente se assustou, incluindo o cão, que se pôs a ladrar com uma raiva terrível, embora sempre à distância e às arrecuas.

As mulheres largaram o bordado e foram proteger as crianças, ao passo que o louco entrou pela porta da cozinha e foi ter à sala, onde marrou três vezes com a cabeça na parede – pam pam pam – e desmaiou, deixando lá um desenho abstrato feito a sangue, qualquer coisa como o mapa da parte ocidental da Terra, e também deixou um grande assombro na avozinha que se encontrava num canto a rezar em silêncio e que, por um instante, julgou estar na presença do Diabo.

– Vade retro! – Disse a velha.

Depois viu que tudo não passava duma palhaçada e deu-lhe para rir e foi rindo e rindo como já não ria desde que enviuvara, há mais de trinta anos, uma coisa incrível, um riso compulsivo, sem explicação.

Na sala estava também um rapazito, sentado à mesa a escrever uma redação para entregar na escola no dia seguinte. Quanto o louco entrou por ali adentro, o puto levantou-se de supetão, muito assustado. Os papéis esvoaçaram e um saiu pela janela, apanhou uma rajada de vento, elevou-se no ar e afastou-se para longe, a voar como uma borboleta gigante no país do amanhã.

Nesse papel – contou-me o meu amigo – estava escrita uma única frase, assim:

Eu sou a tua solidão.