A morte

Escolhi para título desta crónica o mesmo título que Maria Filomena Mónica escolheu para o seu livro, que faz parte da coleção ‘Ensaios’ da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Depois de ter ouvido, no fim de semana, os comentários acalorados de quem foi à missa, e prestou atenção à homilia, e depois de ter lido e ouvido na comunicação social opiniões a favor e contra a eutanásia, resolvi ir buscá-lo à estante.

As suas 80 páginas deviam ser uma leitura obrigatória para os deputados e para qualquer pessoa que se interesse pelo tema ‘quente’ do momento. Depois de reler aquele texto, já com nove anos, concluí que continua a ser a análise mais lúcida com que me deparei.

Não é fácil pensar no nosso próprio fim e, muito menos, de um modo pragmático ao ponto de prepará-lo. Os nossos pais não nos ensinam a fazer isso, o que faz sentido uma vez que esse assunto não combina muito com a infância ou com a juventude. Mas depois, se tudo correr como esperado, envelhecemos e damos por nós a pensar como terminará o último capítulo da nossa história.

O que os meus pais não me ensinaram antes, acabaram por fazê-lo através do seu exemplo. Ultrapassada a surpresa de perceber tudo o que ambos tinham deixado definido previamente acerca da sua morte, fiquei aliviada por saber o que fazer. Mais ainda, por saber o que queriam que eu fizesse.

Essa experiência pessoal reforçou a minha ideia de que não devemos tomar decisões que têm impacto a médio e a longo prazo baseados apenas nas circunstâncias atuais. Partimos logo de uma premissa errada, porque em maior ou menor grau, tudo muda. Hoje temos saúde, amanhã podemos ficar gravemente doentes. Hoje temos dinheiro, amanhã podemos não o ter. Hoje somos casados, amanhã podemos ser divorciados ou viúvos. Hoje temos os filhos em casa, amanhã podem estar a morar noutro país. Hoje temos muita gente querida à nossa volta, amanhã podemos encontrar-nos sozinhos. Planear o futuro como base nos pressupostos de hoje é um erro, tal como julgar o passado pelos olhos de hoje. O hoje não é bom conselheiro.

Não é morte que me assusta, mas a morte do meu juízo, da minha identidade e da minha memória. Por isso tenho pena que a opção pelo Testamento Vital não seja mais divulgada e explicada com uma linguagem acessível, tal com a sua base legal, as suas efetivas consequências e como se pode fazê-lo.

Tal como a autora do ensaio ‘A Morte’, acredito na liberdade individual e acredito que o Testamento Vital é uma ferramenta que me permitirá decidir em consciência alguns pontos relativos à minha despedida final. Talvez esteja a iludir-me com uma falsa ideia de controle sobre uma situação cujas circunstâncias me escapam completamente. Talvez...

Mas, para mim, há uma diferença enorme entre vida e vida prolongada artificialmente. Como eu só estou interessada em cá ficar enquanto tiver a primeira, e tenciono deixar expressa essa vontade, acho que quando for embora de vez não darei muito trabalho nem aos familiares nem aos médicos.