Já passou tanto tempo

Ainda há pouco ia jurar que éramos feitos de eternidade. Mal começávamos a pisar a terra do mundo e tudo nos parecia distante. Não havia uma sombra que não fosse a nossa a crescer à frente do sol.

Era uma lentidão inicial contrária à nossa vontade. Nós só queríamos crescer para a frente. Era sempre à frente que estaria a felicidade. Em que outro tempo se poderia conjugar esse lugar que parece estar sempre em falta?  O futuro era, sem dúvida, o tempo certo. Um tempo à frente.

Daí os nossos passos em velocidade, a escalada pela imaginação, a conquista de capa e espada, os joelhos esfolados pela pressa e pelo desafio.

E o tempo de então na sua lentidão cheia de tardes infinitas.

Depois? Depois nem sei que raio de mecanismo se pôs a trabalhar sem o nosso comando. Sei apenas que tudo aconteceu com uma velocidade que não demos conta.   Não era o nosso ritmo. Finalmente o mundo conspirava a sua própria velocidade que nos era alheia. E, pelo desconhecimento, foi difícil perceber que a marcha lenta se tinha transformado em por vir apressado. O corpo, ainda não habituado ao livre arbítrio do mundo, tentava não cair. E, como se sabe, a atenção dispersa-se quando tentamos o equilíbrio.

E eis que nos chega o tempo do tarde. Tudo é demasiado tarde. Ou somos nós que nos atrasamos, ou são os outros de nós que correm apressados em direção já não ao futuro, mas ao fim. E ficamos assim, de mãos caídas ao lado do corpo, a tentar perceber como saltamos do futuro para o fim. É que foi um salto. Quase um salto daqueles que dávamos no escuro e durante o qual suspendíamos a respiração a ensaiar uma espécie de esperança. Era isso acreditar no futuro: uma apneia a permitir a esperança.

Só que a velocidade a que o fim acontece não nos dá tempo de aprender a nova respiração. Como respirar? Com o ritmo lento do passado, ou com o ritmo veloz do fim?   E onde fica o futuro entre estas duas velocidades?

Onde fica o coração quando já não se sabe o ritmo?

Não sei se teremos tempo de aprender uma nova respiração. Não sei sequer se ela é possível depois de ter cessado a tua e a de tantos que nos faltam para aprender a coreografia capaz de transformar o fim em futuro.

É que já passou tanto tempo. E o necessário era mesmo aprender novamente a calma e a lentidão.

Falta-nos a velocidade certa, o tempo certo do mundo, talvez um pouco daquela pressa em direção a um hipotético futuro. Talvez nos falte o tempo de esfolarmos novamente os joelhos no desafio. É que agora parece que apenas sabemos esfolar o coração, que é sempre mais difícil de curar por dentro.