O tempo é nosso

Uma vez, já lá vão quase vinte anos, fui de férias a Cabo Verde e visitei três ilhas – São Vicente, Santo Antão e Sal. Gostei muito, mesmo muito. Passei os dias comovido, porque tudo o que via e sentia me transportava para o tempo da infância, do mar à serra, do sonho ao deserto, tudo aquilo era eu outra vez no tempo da inocência, eu inteiro no seio da mãe e no aconchego das tias, da escuridão à luz, da pobreza à esperança, era eu a construir o mundo e a fantasia entre o Laranjal e a Quinta das Freiras, eu ali na curva da estrada, nivelado pelo horizonte, eu menino perdido no prumo da floresta mágica, eu…

– Para com isso, Duarte Caires!

Quando me ponho a falar assim, a Pat olha para mim com intensidade – às vezes severa, outras vezes divertida – e diz-me que talvez seja melhor eu gastar palavras a contar histórias em vez de as perder em monólogos e filosofias existenciais.

Eu fico lixado, claro que fico lixado!

Mas, de facto, quando falo assim – estas coisas aéreas – é porque não tenho nada para dizer, não tenho opinião formada sobre coisa alguma, estou vazio, não me ralo com nada e mando tudo para a puta que o pariu. Sim, mando tudo para a puta que o pariu: a comédia e o horror do mundo, a sua profundidade, a sua atualidade e a sua futilidade também, o mérito e a vaidade dos homens, a honra e a merda do dinheiro, o bem que morre agora e todo o mal que vem a caminho – puta que os pariu!
Depois, porém, reajo:

– Meu amor, qualquer história é uma reflexão sobre a vida. Se não o for, não serve para nada.

A Pat responde assim:

– Então, escreve sobre isso.

E, para que eu não me sinta um trapezista sem rede, acrescenta:

– Amo-te, Duarte Caires.

Sem isso, não vou a lado algum.

Na ilha do Sal, em Cabo Verde, houve um dia em que fui almoçar num restaurante perto do mar, na localidade de Pedra Lume. Quando me sentei à mesa, reparei num velhote que estava na esplanada. Era alto e magro, esguio, muito sereno e tranquilo. Um homem de paz, pensei. O seu olhar era doce e suave, o seu gesto lento e longo, a sua alma era clara, profunda a cor da sua pele. Estava à espera que lhe trouxessem a refeição.

Eu escolhi o meu prato e esperei uma hora por ele. Depois, comi demoradamente.

O velho continuava à espera, sem qualquer sinal de impaciência.

Eu terminei e pedi a conta.

Nessa hora, um dos empregados aproximou-se do velho e colocou sobre a sua mesa um prato com um belo peixe grelhado a fumegar, muito apetitoso, de certeza fresco, acabadinho de pescar. Ele sorriu, agradeceu. Estava muito feliz, muito satisfeito. Pegou no garfo e na faca. Lançou um olhar em redor com devoção, como quem agradece a Deus a bênção da vida. Debruçou-se sobre a comida, os talheres quase a afundar no peixe. De repente, para. Arregala os olhos. Suspira e nota-se um certo enfado no suspiro. Pousa os talheres. Volta-se para trás e chama o empregado, que tinha acabado de virar as costas.

– Não foi este o peixe que eu pedi – diz o velhote.

– Ah, pois não! – Responde o empregado, surpreendido.

Depois, põem-se a falar em crioulo e eu percebo que o velho está a desculpar o engano e o empregado também pede desculpa por isso. O velho começa a rir por causa daquela distração, onde é que já se viu confundir o peixe x com o peixe y, pelo amor de Deus, e o empregado também se ri por isso, foi mesmo uma coisa sem pés nem cabeça. O velho ordena então que lhe tragam o peixe certo e o empregado diz que vão já tratar do assunto, mas adverte vai demorar, vai demorar, e o velho terá respondido aquilo que, muitos anos mais tarde, eu ouvia dizer com frequência em África:

– O tempo é nosso.

Fui-me embora e ele permaneceu à espera da refeição, exatamente como o encontrara quando cheguei ao restaurante. O seu olhar era doce e suave, o seu gesto lento e longo, a sua alma era clara, profunda a cor da sua pele, profundo o mar diante de si e a vida também, a vida também…