Uma casa desenhada pelo coração

Nos sonhos, as casas misturam-se numa arquitetura do coração. E o coração não sabe desenhar a direito, não percebe nada de dimensões, de divisões, de perspetivas e sabe ainda menos de mapas. A geografia do coração é infinita e aleatória. 

E o coração anda mais liberto quando adormece em nós a consciência. É nessa altura que o coração avança de pata em riste e desenha a verdadeira casa.

A minha casa do coração é feita de pelo menos três casas. As duas da minha infância e uma outra distante, agora vazia, mas que foi a possibilidade maior de existir chão onde descansar, onde respirar, onde a felicidade podia habitar a procura finalmente feita resposta.

Na minha casa do coração ainda sobrevivem as três laranjeiras abatidas pelo cimento do progresso. Ainda existem as sombras e a escadaria até ao fundo, onde os animais viviam e eram ensinados por mim a sonhar. Ou aprendia eu com eles a sentir o chão e o céu como se fosse possível dar a asa a meio peito a respirar como movimento sempre inaugural.

Existe a cozinha e as minhas mãos pequenas a aprender a descascar ervilhas ou a barrar o chocolate do bolo de bolacha e a fazer chover coco no fim.

Ainda existem as mãos carinhosas da Ilda a ensaiarem em mim a maternidade impossível.

Permanece o chão da casa onde desenhávamos o avião e educávamos o pé para o equilíbrio do voo. Contagem decrescente para desaparecer, mas não para sempre, que isso era morrer e nós tínhamos medo do escuro.

Existe aquele último degrau e as nossas sardas a serem inventadas pelo sol que nos ensinava a fechar os olhos e a conseguir distinguir a linha do horizonte no mar que era o fim do mundo, pelo menos do nosso mundo.

E a casa imaginada do coração consegue integrar a janela quadrada para o jardim. A cadeira colocada do outro lado da sala onde eu te velava o sono e a respiração. O teu sorriso que era a casa inteira e a ternura como nunca antes em nenhuma casa.

Existe a possibilidade de regresso à casa de partida através de uma outra laranjeira à qual tu gostavas de vigiar os frutos com o orgulho de um agricultor distraído pelas palavras. E nós sabemos como as árvores sobrevivem ao silêncio, à distração e ao desconhecimento.

Existe a possibilidade de me deitar ao teu lado como se nunca tivesse vivido num outro espaço que não fosse aquele. E tu a falares do sol que entra pela janela e da sorte que sobrevive mesmo ao avançar da morte.

É na casa, como princípio e como fim, faço ainda a contagem decrescente para desaparecer. Já não tenho medo de morrer, nem de fechar os olhos. Já quase nem tenho medo do escuro.

O que me amedronta é o silêncio que me ficou por dentro da pele quando, longe da casa, o mundo parou, quieto, de patas fincadas no chão.

O coração desenha a casa mesmo quando já não é possível habitá-la. Desenha a casa quando apenas já só é possível sonhar e seguir o traço torto, mas certo do coração.