Pico mãe

Era o nosso ponto de orientação. Cardinal. O nosso norte. Assim a delimitar a aldeia em altitude. Parecia inatingível nos nossos tenros anos. Vedados por ameaças com velhos dos sacos que nos levariam para longe. Olhávamos com admiração e escutávamos, estremunhados, as estórias dos mais velhos, que tinham carta branca para palmilhar a montanha que parecia tocar o céu. Traziam castanhas e nozes lá de cima, da terra abençoada, oásis temeroso da nossa infância.

Pico da Coroa. Até o nome tinha tiques de realeza. Com a adolescência, abriam-se as portas virtuais e lá podíamos ir, meninos à volta da fogueira a saber não o que custou, mas a que sabia a liberdade. Prevaricávamos como podíamos, um trago de licor rapinado da despensa de uma mãe que se fingia distraída. Uma asneirinha aqui, uma piada herege além e risinhos nervosos. No topo do nosso pico, onde assentávamos arraiais, montávamos o piquenique e ouvíamos música ‘grunge’ que na altura estava ‘alive’, o mundo parecia nosso. Era a aldeia toda a nossos pés, da serra ao mar, dos picos às achadas, da Contenda ao Farrobo.

O Pico da Coroa, miradouro das nossas vidas. Os pais lá em baixo a torcer para que não fizéssemos disparates, e nós a rirmos daquela noite de verão em que nos disseram que Marte ia estar tão perto da terra que se veria a olho nu. Todos vimos o ponto vermelho, que afinal nada mais era que a luz da antena colocada no ponto mais alto da freguesia. Pior do que isso só quando chorámos a ver a implosão do Atlantis, o hotel que caiu para poderem aterrar mais aviões. Diz quem sabe que não havia melhor vista para aquele fim de ciclo do que dali.

O nosso norte, a nossa história, a testemunha ocular dos nossos ganhos e perdas. Admirável e temível na infância, desafiador e sonhador na juventude, dado adquirido na maioridade.

A falta que faz um Pico da Coroa nas nossas vidas. Um norte com cheirinho a carqueja e feiteira. Um miradouro para o mar e para as nossas possibilidades. Um ancoradouro, longe do mar.