Do silêncio da cruz

Veste-se de silêncio este dia da Cruz. Veste-se de noite. Mesmo sabendo que a Vida vencerá. Mesmo sabendo.

É assim a morte. Dura. Mesmo sabendo. E é dela que falo, hoje, nesta Sexta-Feira Maior em que a própria natureza se cala para tentar perceber o mistério do fim. E do silêncio de Deus que se faz ouvir nas palavras do Filho: “ Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”

Se a questão de Jesus fosse “a quê?”, sabíamos a resposta e dá-la-íamos sem precisar de usar as palavras. Bastaria olhar as imagens que nos entram em casa, todos os dias, sem nos fazer doer; bastaria observar, no chão que pisamos, as pegadas de quem caminha sozinho; bastaria pensar no egoísmo dos passos que não damos, no modo que encontramos para nos proteger dos outros.

Na Cruz – nas nossas também – somos convidados a escutar (e “escutar” é ouvir com o coração) e a contemplar ( e “contemplar” é ver com o coração) este vazio que antecede um Mistério que ultrapassa o nosso entendimento e que se esconde nas frases que Cristo pronuncia do alto do fim: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”; “Pai, nas tuas mãos, entrego o meu espírito”. Contam os evangelistas que o véu do templo se rasgou, depois do grito derradeiro que ainda hoje ecoa na nossa perplexidade – “tudo está consumado”.

No silêncio desse dia, Deus abriu as portas do Sagrado à nossa humanidade. Deve fazer o mesmo nos silêncios das nossas sextas-feiras da paixão, naquelas em que perdemos gente, em que nos despedimos, em que choramos, em que morremos.

Às portas das nossas mortes, do alto das nossas cruzes, tememos este silêncio de Quem tudo pode. E gritamos mais alto que o nosso medo. E duvidamos da intimidade de Quem não se revela, porque está dentro de nós. E recusamos a cruz quando ela se despe de sentido. E temos medo do escuro.

É preciso, então, aprendermos, de novo, a ciência do silêncio. Que não é fácil. Que esconde em si o Mistério de Deus e o Mistério do Homem. Mas que arranca o véu da nossa fragilidade e nos abre o céu.

Hoje, é sexta-feira santa. O mundo é um campo de cruzes. Perguntamo-nos por Deus e pela razão do Seu silêncio. E esperamos. Amanhã, é dia de Ressurreição.