Um passeio no fio da navalha

Uma viagem noturna entre Pebane e Mocuba – 200 quilómetros de estrada em terra batida no coração da Zambézia – fez-me recordar as excursões à volta da ilha quando eu era criança. Aconteceu há dez anos, numa altura em que eu dava aulas de Português numa missão católica e tinha os cabelos compridos, tão compridos que as pontas roçavam nos cotovelos, como a liberdade roça no fundo da alma. Eu aproveitava todas as interrupções letivas para me entregar à distância, conhecer o país, sentir o pulsar da terra.

Daquela vez escolhi Pebane, vila remota à beira do Índico. Fui para lá na carroçaria de um canter e o trajeto pareceu-me interminável, mas como aconteceu durante o dia, passei as horas distraído, a olhar em redor e a falar com os outros passageiros. Regressei três dias depois, também a bordo de um canter, mas agora na cabine, sentado entre uma mamã muito gorda e o condutor, do meu lado direito, porque em Moçambique conduz-se pela esquerda.

Saímos ao cair da noite e a viagem decorreu na escuridão, o que, a certa altura, se tornou assustador. Então, para contornar o medo, pus-me a pensar nas excursões da paróquia, lembrando-me das vezes em que íamos todos felizes pela ilha adentro, eu, os meus pais, a minha irmã, as minhas tias, os vizinhos do Laranjal, a cantar e a galhofar, a sentir o sabor dos gelados Epá e o amor pleno à nossa terra.

Contudo, também ali eu ficava cheio de medo, a tremer, quando o carro entrava nos furados e percorria estradas sob ameaça iminente de derrocada, sobretudo aquela entre São Vicente e Porto Moniz, horrível e maravilhosa. Às vezes até chorava e a minha mãe amparava-me no seu peito. Era tão inocente. Eu via-me a cair no mar do Norte, via a morte. Meu Deus!

Ia a minha recordação neste ponto, quando o condutor apanha uma reta e acelera a fundo no escuro. O carro vai aos solavancos. Subitamente, surge uma curva na picada. Ele guina a tempo de evitar o despiste, mas a viatura inclina para o lado direito, ficando com as rodas do lado esquerdo no ar. O tempo para. O corpo pesado da mamã descai sobre o meu e o meu sobre o do motorista.

Vai capotar, penso.

Penso sempre o mesmo.

Por exemplo, a última crónica que escrevi, intitulada ‘Um longo dia sem história’, continha dois erros de concordância, tão claros e evidentes, que me deixaram triste e irritado, a pensar assim: Isto é lixado, porra! Escrever é como viver – é um passeio no fio da navalha. Não há como chegar ao fim sem haver sangue pelo caminho. Não vos parece?

Maldita gramática.

Fiquei a semana inteira a maturar no chão que me suporta, este chão que vai daqui ao fim do mundo, talvez o lugar mais distante aonde já me desloquei ou aqui mesmo, nas zonas altas de Santo António, no centro do Funchal, em qualquer sítio. O chão existe, tem partes suaves, percorre vales e montanhas de paz e serenidade, mas também desce a pique, é pedregoso, tenebroso, frio, afiado como uma lâmina e eu tenho a mania de andar descalço. Raios me partam! Tenho a mania de andar descalço e depois corto-me.

Às vezes, olho para mim e digo:

– Meu caro, assim não chegas a lado nenhum.

Maldita gramática da existência.

O erro faz-me parar. À primeira vista, fico com medo, apetece-me logo desistir, queimar tudo, ser apocalíptico, arrasar o mundo dentro de mim, pôr um ponto final. Depois, vejo que a vida afinal é uma jornada no abismo e a possibilidade de me ferir com gravidade é constante, aterradora. O mais importante, contudo, é que há sempre uma viagem em curso e isso – garanto-vos – é quanto basta para engrandecer o espírito e educá-lo para a imortalidade.

Naquela noite, em África, correu tudo bem, exatamente como nas excursões da infância.