Um sol para cada um

No passado domingo a temperatura subiu em várias cidades portuguesas, para valores estranhos a esta altura do ano. Essa visita fora de horas dominou as conversas de circunstância na rua, no trabalho, nos transportes... conversas que, por norma, já são sobre ‘o tempo que se faz sentir’.

E o que eu senti, especialmente durante o dia, foi um calor de primavera. Um calor que costuma ser um presente de São Martinho e não da Nossa Senhora das Candeias. Imagino que tenha sido tudo alinhado com São Pedro na reunião de Staff. Mas seja de qual Santo for, gostava de receber esse presente outra vez no Carnaval para poder poupar no tecido da fantasia.

Nas redes sociais, o sol, como único inquilino do condomínio celeste, foi abundantemente fotografado. Vi fotos do seu reflexo no mar e em óculos escuros, a aquecer cães e donos que passeavam em jardins, a justificar a existência de toldos nas esplanadas e, as mais melancólicas, com ele a despedir-se no fim dia.

Mas não foi apenas nas redes sociais que notei a sua presença...

Apesar de ter aproveitado bem a novidade de domingo, achei que seria ‘fruta a mais’ o calor prolongar a sua estadia a para segunda-feira. Cética, não acreditei nas previsões anunciadas no fim do noticiário e saí de casa demasiado agasalhada. A caminho de um compromisso e, felizmente, com tempo de sobra, apanhei o autocarro certo mas saí na paragem errada, muito antes do meu destino. Acabei tendo que fazer o resto do caminho a pé, enfrentando durante vinte minutos o calor do meio-dia. Como se diz no Brasil, era ‘um sol para cada um’ e eu estava de caras com o meu. Então, culpei-o por ter chegado ao meu destino com a blusa colada às costas e a sensação de que conheço demasiados palavrões.

Como que para fazermos as pazes depois do acontecido durante a hora do almoço, no regresso a casa encontrei pessoas mais leves (exceto eu, com o meu casaco de inverno) e mais bem-dispostas. Acho mesmo que foi o facto de o dia estar tão bonito que fez surgir a gentileza entre estranhos. No apinhado átrio central de uma estação de comboios, um dos passageiros conseguiu ler os meus passos hesitantes e veio oferecer-me ajuda para passar nos torniquetes. Resolvida a situação, respondi ao seu gesto com um sorriso aliviado e com um desejo de que ‘a vida lhe retribua em dobro’. Ficamos ali a conversar um pouco sobre coisas banais, no fundo a partilhar dois bens valiosíssimos: tempo e atenção.

Quando me fui embora, culpei o sol por ter amolecido os nossos corações.