Um longo dia sem história

E então eu decidi escrever tudo de seguida, um dia na minha vida, sem olhar para trás, como se fosse possível escrever tudo sem olhar para trás, e até pensei não utilizar pontuação, como fazem alguns escritores, de modo a enredar-vos numa teia de palavras e sentimentos e emoções sem fim, sem nexo, sem ordem, uma só frase do tamanho do meu coração e do seu labirinto, a contar tudo o que me aconteceu neste dia, mais um dia sem história na minha vida, igual aos vossos dias sem história, mas depois pensei melhor e disse assim:

– Vou escrever tudo de seguida, mas com pontos e vírgulas.

O despertador tocou às 07h30 e eu acordei sem vontade, ainda com as imagens do livro que estou a ler a bater-me na cabeça, como ondas revoltas num mar interior. Ando perdido neste mar dentro de mim, sabem, em navegação infinita desde que tomei consciência do meu nome, da minha idade, do meu lugar no mundo, mas isso não quer dizer nada, não quer dizer nada, é apenas inexplicável. O livro intitula-se “Benito Cereno”.

Acordei e saí de casa e lá fui exercer a minha atividade profissional, que consiste essencialmente em ouvir o que os outros dizem e depois reproduzir as suas verdades, quase sempre absolutas, a verdade deste contra a verdade daquele e vice-versa e outras coisas assim também muito absolutas, estão a ver, acerca das quais a minha opinião é pouca, como diz o outro, e a sonolência muita.

E depois, no meio daquele falar destravado, deparei-me com notícias que davam conta do mau tempo em Moçambique, a dizer que a chuva já matou 45 pessoas, a maioria na Zambézia, uma província a que estou unido por laços inquebráveis, pelo menos inesquecíveis, mas aonde não me desloco há vários anos, sendo agora também parte do mar interior que percorro sem bússola. Aquilo inquietou-me. Telefonei para lá. Não me atenderam. Insisti. Nada. Então, defendi-me com um pensamento à maneira de farol, assim:

– A Zambézia é grande como Portugal. Tenho a certeza de que a desgraça não aconteceu no lugar onde vivi. Todos hão de estar bem.

Chegou a hora do almoço e eu fui a casa da Pat, na zona oeste da cidade, e preparei uma salada só para mim. Ela não almoçou em casa, mas eu sentia-a por todo o lado. Sinto-a sempre em toda a parte quando não estou com ela e depois morro de saudades. Basta umas horas sem a ver e já fico a morrer de saudades. O melhor de tudo é que ela é igual a mim. Mandou-me uma mensagem a dizer: “Tenho muitas saudades tuas… fazes-me falta!” E eu respondi assim: “Amo-te amo-te amo-te!!!”

O dia prossegue. Que dia é este? Terça-feira? Quarta-feira? Encolho os ombros. É mais um dia no mundo e na vida. Menos um também, já se sabe. É sempre assim. Mais um dia, menos um dia. É o tempo a fazer tiquetaque. Não para.  Tiquetaque, tiquetaque. E neste tiquetaque contínuo a minha família – o núcleo dourado onde cresci e fui feliz – está a desaparecer, está em vias de extinção. Agora mesmo morreu a tia Alice. Somos cada vez menos e estamos cada vez mais sozinhos.

E então lá vou eu comprar ração para o cãozinho que o meu pai trouxe para casa aqui há tempos –  uma boa companhia, diz ele – e o bicho anda sempre a lhe atazanar a cabeça, rasga tudo o que apanha, atravanca-lhe as pernas, ladra de noite e o meu pai fica estuporado, mas gosta dele, claro que gosta. O meu pai sempre gostou muito de cães. Este chama-se Tonecas e é já o terceiro com o mesmo nome. Eu, no entanto, trato-o por Toni e também por Mínimo, porque é mesmo um rafeiro minúsculo. Sempre que chego a casa, ele vem ter comigo muito feliz e desafia-me para a brincadeira.

O dia ainda não acabou e eu não faço ideia de como vai terminar. A história nele contida, se calhar, vai acontecer mais tarde, talvez à noite, mas para já a hora passa sem mistério e isto é tudo que tenho para vos dizer hoje, estimados leitores.