À Irmã S. Paulo (in memoriam)

A Irmã S. Paulo morreu. E servem estas palavras de homenagem ao seu modo alegre de levar a vida, ao seu sorriso, à sabedoria quase inocente de fazer amigos, de conversar, de segurar as mãos que a amparavam na subida já difícil da Rua das Mercês.

Escrevo com carinho sobre esta mulher que me ia visitar, que se preocupava comigo: que o vento me ia levar, que trabalhava muito, que nunca mais me tinha encontrado. Às vezes, ia visitar-me, oferecia-me um caramelo que me obrigava a comer,

- está muito magrinha

mostrava-me a bula dos medicamentos novos e ficávamos a conversar sobre si, sobre o mundo, sobre as pessoas que trazia no coração: a D. Inês, o Sr. José, a Fátima,

- tão nova, a Fátima! Vai chegar primeiro ao pé do meu marido.

Falava muito de Deus, a Irmã S. Paulo.

- Mas eu também estou quase.

Era assim a Irmã S. Paulo. E fez falta na Rua das Mercês. Já não vai à Fava Rica se sentar um bocadinho, já não me manda recados pelo segurança do colégio da Apresentação de Maria, já não. A Irmã S. Paulo, já não.

Pedia-me os textos que ia distribuindo, apenas porque gostava deles, porque achava que podiam fazer bem a alguns corações. E dava sentido a este ofício de escrever o que me vai por dentro, como se, efetivamente, servisse para alguma coisa.

E ríamos. Subimos, muitas vezes, juntas. Devagar.  Fazendo render os encontros. Parando para dois dedos de conversa, para um beijo.

- O meu Marido não é ciumento. E eu tenho muitos amigos.

Tive pena de não ter ido despedir-me dela. Mas a vida. Ai, a vida! Abdicamos de tanta coisa importante para a poder viver!

Um dia, trouxe-me um terço.

- É para que reze – disse-me.

Eu rezo, Irmã S. Paulo. Reze também por mim.