O diabo entre nós

No tempo em que tudo ficava longe, nesta terra e no mundo inteiro, eu e um amigo fomos dar uma volta à ilha no carro dele, um chaço que mal se arrastava. A viagem durou dois dias e pelo caminho falámos de muitas coisas, mas agora, passados tantos anos, só recordo com clareza um assunto – a insignificância das nossas vidas.

Ainda me oiço a dizer:

– A história da minha vida é feita de acontecimentos sem valor.

E o meu amigo respondeu:

– É por isso que nunca mais vais esquecer este passeio.

E assim foi.

Quando passámos por São Vicente, encontrámos o Corvo numa tasca à beira mar a beber vinho seco. Ele era dono de um restaurante no Funchal, que nós frequentávamos amiúde, mas tinha casa em São Vicente, onde passava os fins de semana, e convidou-nos para jantar, dizendo que a mulher estava a preparar uma caldeirada espetacular.

Após a refeição, sentámo-nos os três na sala a conversar, a fumar e a beber uísque e, de repente, o meu olhar imobilizou-se numa estante suspensa na parede, formada por duas prateleiras com metro e meio de comprimento, completamente atacadas de livros.

– São todos antigos e originais – disse o Corvo, orgulhoso, quando percebeu o meu encanto.

Com efeito, ele tinha percorrido todas as livrarias, antiquários e feiras à procura de livros para compor aquelas duas prateleiras. Não se importava com os assuntos nem em que língua vinham escritos, queria apenas que fossem velhos e de capa dura. A maioria tinha mais de cem anos, havendo até um com duzentos anos, e todos tinham custado quase nada.

– Comprei o mais antigo na Feira da Lagartixa – esclareceu o Corvo.

E depois sublinhou que não há lugar melhor do que uma feira para comprar objetos de decoração em condições, coisas como deve ser – dizia ele – e o meu amigo abanou logo a cabeça que sim, muito efusivo, e pôs-se a contar a história de um candeeiro a petróleo que comprara lá mesmo, na Feira da Lagartixa, um candeeiro do tempo dos avós, autêntico, uma relíquia que lhe mudara o sentido da vida, porque continha uma luz pura e inexplicável, memória absoluta da sua felicidade perdida.

Depois de adquirir o candeeiro – contou-nos – dirigiu-se ao Mercado dos Lavradores, em busca de fruta e legumes para casa. Entretanto, encontrou dois vizinhos e foram os três tomar um copo, que logo se transformou em vários copos, porque era sábado e a malta estava relaxada. O convívio animou, muita gargalhada à solta, muito gesto pelo ar, até que uma cotovelada inoportuna fez cair do balcão o saco de plástico com o candeeiro a petróleo.

– Ficou feito em dez mil pedacinhos – disse ele. – Ou mais. Talvez mais.

Mas o pior, o mais terrível – continuou – é que naquele momento, naquele preciso momento em que o candeeiro a petróleo entrou em contacto com o chão e se desfez em cacos, ele sentira uma dor igual à dor de um inocente a quem arrancam as unhas.

– Tão a ver a cena? – Dizia ele.

Sentiu-se como um tipo que é agarrado ao calhas na rua, sem mais nem menos, é levado para um armazém abandonado, é amarrado numa cadeira com cordas, correntes, fita cola também, e é torturado durante horas a fio sem saber porquê, embora o gajo que lhe vai dando porrada e arrancando as unhas com uma turquês esteja sempre a pedir-lhe que diga a verdade.

– Diz a verdade, filho da puta!

E ele, transido de medo, primeiro aos gritos, depois sem força, quase sem voz, cheio de sangue, quase a morrer, sempre a perguntar:

– Qual verdade?

Ao que o outro vai respondendo:

– Diz a verdade, seu sacana!

E desde então este meu amigo, que entretanto já faleceu, nunca mais deixou de sentir o sofrimento dos inocentes, um sofrimento que se agiganta sem sentido no mundo inteiro e faz-nos pensar, de vez em quando, que o diabo vive entre nós como se fosse um de nós.

– Parece impossível! – Dizia ele, esvaziando o copo de uísque. – Parece impossível! – Dizia ele pesaroso.