Fazer anos

Estou quase a fazer anos. Fazer anos... mesmo depois de tantos anos em Portugal, ainda estranho esta expressão. Só faço mais um, penso eu. E depois penso que ‘fazer anos’ seja um eufemismo para envelhecer, acumular celebrações, acumular datas no calendário, acumular vida.

Logo no seu primeiro aniversário, já dizemos que o bebé ‘faz anos’, ainda que, ocupado a comer, dormir, chorar e crescer, não se tenha apercebido de termos dado uma volta completa ao redor do sol.

Acho especialmente curioso que se use o verbo ‘fazer’ na voz ativa: ‘fulano faz anos’ ou ‘eu faço anos’... e vamos fazendo anos, uns atrás dos outros. Anos que para o fulano continuam a pesar e que para mim continuam apesar.

Quando celebramos o nosso aniversário fazemos inevitavelmente uma viagem ao passado, por saudade melancólica ou por alegria aliviada, mas sempre com companhia e com bilhete de volta.

E voltamos porque é preciso fazer mais anos, fazer mais e melhor com os anos que nos restam, fazer com que contem. Voltamos porque temos que fazer pela vida, fazer por onde, fazer porque tem de ser. Voltamos porque queremos fazer com gosto, fazer de graça, fazer por missão.

Voltamos para ‘sermos velhos quando o formos’, como neste excerto do poema ‘Aniversário’, de Álvaro de Campos:

“No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!

Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,

Por uma viagem metafísica e carnal,

Com uma dualidade de eu para mim...

Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,

O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,

As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!

Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se-me dias.

Serei velho quando o for.

Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!”