A aprendizagem

Aprender a tristeza é um trabalho contínuo. Uma tarefa infinita à medida da nossa finitude. Um percurso durante o qual é sempre possível mais um passo, ainda que incerto, num certo mistério que é isto de sermos o que somos. Vida a circular, biologia que obedece a regras precisas, e espírito sempre livre para a queda ou para o voo.

Posso localizar, com uma aceitável certeza, o dia em que me senti triste pela primeira vez. Verdadeiramente triste, como só ficamos perante o que não tem solução e resiste, de várias maneiras, à vontade e ao querer.

Creio que era um domingo. Estávamos pelo menos todos à mesa do pequeno almoço quando ouvimos a voz do vizinho a chamar pelo meu pai. E depois a voz do meu pai a responder e a sair para a rua. Penso que ficámos na rotina por mais alguns minutos.  Felizes. Felizes?

O meu pai regressou e já não era o mesmo. O cigarro nervoso na mão sempre nervosa do meu pai. Uma certa tristeza no olhar a antecipar o nosso primeiro desgosto. O meu pai a tentar encontrar as palavras certas, como se elas fossem capazes de arrumar o mundo ou de torná-lo mais suportável.

O meu pai não encontrou novas palavras para dizer da morte do gato. O nosso gato. O nosso gato apanhado pelo espírito pragmático de alguém que só pensou em matar as pragas, mas que acabou por matar o nosso gato. O nosso gato feito de cuidados nossos, de ternura nossa. O nosso gato ainda com as nossas mãos pelo dorso, ainda a correr atrás das bolas de jornal, ainda no nosso colo, ainda no nosso querer por ele e na fita vermelha ao pescoço que era suposto defendê-lo dos perigos deste e do outro mundo.  O nosso gato morto na fazenda do vizinho e o meu pai a esconder a imagem, a enterrá-lo às escondidas. Olhos que não veem, coração que não sente. Só que não é assim. O nosso, naquele domingo, aprendeu o que é aterrar sem rede em cima da dor. Como quem mergulha, como quem cai, como quem morre.

Foi o primeiro desgosto, a primeira tristeza mensurável. Seria também a nossa primeira aprendizagem do fim. E inaugurava em nós o medo da perda. E se nos morresse o pai, a mãe, um de nós, um dos nossos. Não sabíamos então que não estaria para breve essa possibilidade. Viria a acontecer no futuro, mas ainda faltava muito tempo.

Fomos aprendendo a tristeza em vários momentos e em várias gradações. A tristeza dos outros, a nossa própria tristeza que uma vez instalada sabe tocar a nota certa a cada momento. A tristeza de não sermos certos, a tristeza dos outros não serem certos em nós, a tristeza dos dias tristes e depois essa tristeza mais profunda das grandes perdas ou das grandes revelações

Chegou o dia de perder o pai, o dia de nos perdermos a nós mesmos de tantas maneiras que não sabíamos ser possível, o dia de aprendermos todas as formas de sairmos derrotados, de cairmos, de nos levantarmos também. Que todos os movimentos são, de certa maneira, dolorosos.

Pessoalmente, viria também a aprender, muitos anos mais tarde daquele domingo e das mãos nervosas do meu pai, que há tristezas que nos podem naufragar. Aquela tristeza nascida do momento mais feliz de todos e depois da perda desse momento. Assim a vida em suspenso desde o gesto primeiro da minha mão na tua cabeça, ao gesto último das duas mãos envoltas em palavras na tua cabeça. O fim.