A vida inexplicável

O senhor Caires abriu os olhos, mas o sono pesava uma tonelada e fê-lo retroceder à inconsciência, pelo que continuou a dormir e a sonhar com a mãe, morta há quase 30 anos – tanto tempo, meu Deus! – ela estava sentada no quintal, numa cadeira de vimes, com um vestido azul escuro às flores, muito suave e bonita, a mãe do senhor Caires, e ele foi ter com ela, abraçou-a e disse:

– Ainda bem que voltaste.

Porém, não estava tranquilo. Um som constante inquietava-o. Não sabia o que era, mas tinha a certeza de que devia abrir os olhos e acordar de vez.

Agora, ouve claramente que batem à porta e a voz dos ossos na madeira – toc toc toc – ecoa por toda a parte, toda a casa, todo o espírito também.

O senhor Caires acende a luz da mesinha de cabeceira e vê no relógio que são 03:30. Não está em condições de pensar como deve ser, parece uma barata tonta, mas lá mete os pés nos chinelos, veste o robe e vai ver quem o chama assim a tão alta hora da madrugada.

Abre o postigo e arreganha os olhos, solta um grito e dá um salto para trás, no que bate num armário, do alto do qual se despenham duas salvas de latão e uma enorme taça, igualmente de latão, troféus obtidos em campeonatos de futebol pela equipa do hotel, nos tempos áureos, quando ali trabalhavam dezoito pessoas. Um tremendo alarido espalha-se por quartos, salas e corredores vazios e desperta a atenção de um cão ao longe, que começa a ladrar.

– Santo Deus, mas que susto! – Diz o senhor Caires, alarmado e a tremer.

– Não era minha intenção assustá-lo – responde o homem do lado de fora. E acrescenta:

– Peço desculpa por chegar tão tarde.

O senhor Caires permanece atordoado:

– Pensei que você era Jesus Cristo em pessoa!

De facto, o homem parecia Jesus Cristo, porque tinha barba e cabelo comprido, e todos os homens que têm barba e cabelo comprido são parecidos com Jesus Cristo, é o que dizem, pese embora seja muito provável que Jesus Cristo não tivesse nem barba nem cabelo comprido, sendo esta apenas uma ficção que criaram, algures no princípio das coisas como elas são agora, aqui no ocidente, com o intuito de nos iluminar a vida e guiar rumo ao futuro e ao outro mundo também.

– Você, assim no meio da noite, parece mesmo Jesus Cristo! – Desabafa o senhor Caires.

Dirigem-se à receção, onde o senhor Caires entrega ao homem a chave n.º 8, o infinito ao contrário, entre desejos de boa noite e até amanhã. O homem pede-lhe uma vez mais desculpa pelo susto, por ter chegado tão tarde, pelo acidente com os troféus. O senhor Caires diz que não há problema, que o importante agora é descansar, dormir em paz.

O homem sobe a escadaria para o primeiro piso e o senhor Caires regressa aos seus aposentos no rés-do-chão. Quando está a fechar a porta do quarto, ela escapa-lhe da mão e, empurrada por uma corrente de ar, bate com grande estrondo. O senhor Caires acorda de salto e supetão. Tem a cabeça baralhada. Sente-se um verdadeiro idiota. Acende a luz. Esfrega os olhos. Olha para o relógio. São 03:30.

– Porra, que sonho do diabo! – Diz em voz alta.

E, depois, põe-se a pensar que a vida é inexplicável, como uma flor a que se vai tirando as pétalas para ver a sorte que nos calha, uma a uma até deixar de ser flor, bem-me-quer, malmequer, e por este pensamento ficou acordado o resto da noite, pensando também nos mortos da sua família, um a um como pétalas da mesma flor e ele também, ele também.