Fotografia e memória

Acabei de ler um livro sobre fotografia e memória: 'Não Pai', de Daniel Blaufuks. Gosto de fotografias exatamente pelo recetáculo de memória que são, até da memória que não temos, mas que se faz nossa pelas imagens.
   Lembro o álbum de casamento dos meus pais. Tão jovens, tão antes de mim. Tão cheio de futuro que para mim sempre foi passado. Mas, ainda assim, estava lá. No sorriso, nas mãos, numa juventude que foi só deles e da qual não tenho memória que não seja a de uma imagem.
   Lembro uma foto a preto e branco onde apareço ao colo do meu pai e uma outra, no mesmo lugar, ao colo da minha mãe. Imagino que tenham trocado de lugar. Cada um à vez atrás da máquina fotográfica a guardarem para memória futura o tempo inaugural de serem pais. Imagino o cuidado com que me levaram para a esquina da casa, embrulhada contra o frio num dia que parece ter sido cinzento. Atrás deles ainda existem terrenos vazios, sem as casas que coincidem com a minha memória fora daquela imagem.
   A foto é quadrada, a preto e branco, imprecisa como se fosse irreal. Quase todas as fotos da minha infância fazem-se dessa falta de nitidez. Ou porque os dias eram feitos de nevoeiro, ou porque o sol encadeava os brancos pela falta de conhecimento do fotógrafo ou pela incapacidade técnica da máquina.
   Há uma foto ao colo da minha mãe em que ela estava vestida de escuro e eu de branco. Há o sol atrás de nós e eu quase que pareço irreal naquele colo e naquela roupa. Quase um erro na imagem, não fosse o sorriso da minha mãe que repõe o que na imagem surge de forma difusa: a minha presença.
   Esta falta de nitidez, esta imprecisão, esta quase irrealidade desapareceu com os novos mecanismos que captam as imagens do passado recente. O mecanismo raramente falha e até nos envia álbuns digitais que não fizemos, que surgem independentes da nossa vontade e ação. É uma memória que quase não precisa de nós. Uma memória que nos ultrapassa na velocidade de recordar, ou mesmo na nossa vontade de recordar.
   Acabo de receber um desses álbuns. Em todas as fotos estamos nós, desde o princípio surpreendente até ao fim tão rápido e que só as fotografias tornam real. A minha mão sobre a tua cabeça no hospital. Ainda antes, um beijo leve teu junto ao mar. O teu sorriso para mim naquele exato momento em que interrompias a leitura para falares da doçura da tarde e da presença. O nosso sorriso tão antes da tragédia. O frio tão nítido do nosso lugar, ou o sol que não chegou para afastar a tempestade que crescia dentro de ti.
   Não há uma foto imperfeita. Muito pelo contrário. A falta de nitidez das fotografias das minhas primeiras memórias é agora substituída por uma precisão surpreendente. Algumas das fotografias até guardam alguns segundos de movimento, outras o som, antes de congelarem o momento. É possível ver-te andar, ouvir-te sorrir, recordar a respiração difícil do fim.
   Demasiada informação para uma fotografia e para uma memória. Falta a imprecisão do que esquecemos e escolhemos depois recordar. Ou não escolhemos, o que ainda é melhor. Falta a forma como quero recordar, falta a forma como vi, senti e ouvi aquele momento. Falta a hora exata e tudo o que não consta do olhar infalível da máquina e da sua quase infernal precisão.
   Falta a falha, a humanidade, a nossa e a do mundo. São fotografias demasiado perfeitas para a imprecisão da memória, ou demasiado imprecisas para o nosso mecanismo perfeito de recordar.

 

Raquel Gonçalves escreve
à segunda-feira, todas as semanas