Portem-se bem, pelo amor de Deus

Um dia destes, no resumo de um jogo de futebol incluído nos noticiários, mostravam a imagem de um jogador que, após marcar um golo, erguia os olhos ao céu e dedicava o seu feito a um ente querido falecido. Não é a primeira vez que tal presencio. Até ao nosso Ronaldo já vi idêntica atitude. Desta vez, talvez por ser Natal e por ter acabado de ouvir a canção Santa Claus Is Coming to Town, na qual se diz que o Pai Natal nos observa todo o tempo para descobrir se nos portamos bem ou mal e assim avaliar se merecemos presentes, pus-me a pensar na relação que os humanos têm com o Além. Compreendo que nos gostemos de sentir próximo dos que amamos, mesmo quando fisicamente já não estão ao nosso lado. Em momentos difíceis, a eles pedimos ajuda e conselho, mesmo sabendo que não ouviremos as suas palavras. É uma forma de nós próprios analisarmos com maior foco o problema em questão e procurar adivinhar o que nos diriam em tal circunstância. Mas esta vontade de estar sob observação nem sempre nos agrada. Se fazemos algo de bom e que sabemos despertaria o orgulho dos nossos, lembramo-nos deles e dedicamos-lhe o feito, tal como o jogador acima referido. Porém, quando fazemos asneira, ficamos aliviados por eles não poderem ver, envergonhar-se ou entristecer-se por isso.

Esta ideia de se ser vigiado será tão antiga quanto o homem e as religiões por ele criadas que colocam os seus poderosos, omnipresentes e omniscientes Deuses a controlar-nos e prontos a punir-nos caso prevariquemos. Esse será, aliás, o princípio inerente à ideia de pecado, o que, diga-se em abono da verdade, tem tido a sua importância no regramento do comportamento dos humanos. Contudo, para que não nos angustiemos em demasia também, afirmam as mesmas religiões que Deus é pai magnânimo e, dessa forma, os mais descarados, atrevidos ou malévolos lá vão pecando, confiantes na bondade e no perdão divino.

As religiões, pelo menos no dito mundo ocidental, têm perdido algum do seu poder influenciador de comportamentos, à medida que as pessoas ganharam a possibilidade de estudar e desenvolver a sua própria forma de pensar. O que infelizmente, muitas vezes, não se reflete, como desejaríamos e esperaríamos, nas atitudes de respeito pelo outro das gerações mais instruídas e informadas.

A violência, as atrocidades e outros desmandos grassam entre nós e continuamos a precisar de um poder que os trave. Sendo o temor religioso hoje menos dissuasor, outros meios de supervisão surgiram, dando origem a uma mais terrena, mas igualmente complexa, relação com as câmaras de recolha de imagens em todos os locais públicos. A ideia é a mesma: dissuadir os malfeitores porque estão a ser observados. Vivemos agora o conflito entre segurança e liberdade e desconhecemos até onde nos levará este novo poder facultado pela tecnologia. Isto para nem falar dos telemóveis que nos denunciam a presença em qual quer sítio e com base nisso nos invadem o dia-a-dia com publicidade e notícias que nos querem controlar e nem sempre num bom sentido.

O conceito de Big Brother desenvolvido pela ficção de George Orwell, no seu livro “1984”, tornou-se realidade. Se a uns assusta esse domínio invisível por detrás das objetivas e dos ecrãs, a outros agrada. De outra forma não conseguiríamos explicar o desejo de participar nos programas televisivos comummente denominados Reality shows, ou a atividade de bloguistas que expõem, sem pudores, o seu dia-a-dia através da internet.

Afinal, o importante é darmos o nosso melhor em prol do bem comum e respeitarmos o que nos rodeia. Assim, faremos orgulhosos os nossos que partiram, se acreditamos que nos veem; agradaremos a Deus, se formos crentes, e ao Pai Natal, se quisermos ganhar presentes. Por isso, como diz a cantiga: portem-se bem, pelo amor de Deus.

Bom 2020 para todos.