O modo como a terra respira

O inspetor João António era um tipo sombrio, irascível, misógino e bebia muito. Tinha um Honda Civic de quatro portas de 1979, branco, todo esfolado. Contudo, nunca excedida os 50Km/hora. Mesmo quando estava cheio de pressa, o inspetor João António conduzia a passo de caracol e assim foi também quando investigou o “Caso do Crucificado das Quatro Estradas”, uma história de terror que marcou o final do milénio.

Lembram-se?

Tudo começou com a descoberta de um corpo crucificado num cedro gigantesco na zona das Quatro Estradas. O achado coube a um pastor de alcunha Pedra, porque diziam que era rijo como uma pedra, por dentro e por fora, e não tinha medo de nada.

Pedra reparou numa poça de sangue na base do cedro e pensou logo que as ovelhas tinham sido atacadas por um cão danado, coisa que o enervou bastante. Depois, viu que o tronco também estava sarapintado de sangue e seguiu o rasto com os olhos e foi então que se deparou com um homem nu, crucificado lá no alto.

Para além de quatro pregos de 5 polegadas, cravados nas mãos e nos pés, o corpo estava enrolado com arame farpado concertina e era isso que, de facto, o mantinha suspenso e ensanguentado na árvore. O braço direito estava amarrado num ramo ao nível do pescoço e o esquerdo noutro ramo perpendicular por acima da cabeça. As pernas, ao contrário do que seria de esperar, não estavam unidas, mas escandalosamente abertas, ficando os genitais em grande exibição, pelo que aquilo parecia tudo menos uma cruz, ou talvez fosse uma cruz cubista, ou uma cruz porno-cubista, como se o assassino pertencesse a uma seita de psicopatas porno-artistas sadomasoquistas, gente doente e desligada da realidade, como afinal são todos os artistas, para o bem e para o mal, é o que dizem.

O pastor Pedra, contudo, não pensou nada disso, porque era pessoa da serra, homem simples e dado a lidar com animais e com nevoeiros e com frios de rachar ossos e nunca tinha posto os pés numa galeria de arte, lugar demasiado polido e luzidio para os seus modos e entendimento do mundo. A coisa mais estrambólica que lhe passou pela cabeça foi que o crucificado parecia um sinaleiro, uma espécie de sinaleiro-espantalho, como se de repente, no meio da noite, as árvores se tivessem posto a circular de um lado para o outro, havendo necessidade de as disciplinar.

E depois disse em voz alta:

– Puta que pariu, como é que o amarraram lá em cima?

O inspetor João António investigou o caso durante meses.

Desde logo descobriu que o crucificado era um sem-abrigo, pessoa sem qualquer importância, sem família, escória social. Depois, pouco a pouco, as investigações conduziram-no a membros da alta sociedade, gente que guiava os últimos modelos da Mercedes e da BMW e vivia em moradias de luxo, com piscina grande e empregado de farda, o que até então só conhecia das telenovelas, pois o inspetor João António gostava muito de ver telenovelas, embora ninguém soubesse disso, ele não o admitia, considerando que era o seu lado maricas, do qual tinha imensa vergonha.

O inspetor João António bateu em várias portas e por três ocasiões sentiu, como quem sente a dor provocada por um alfinete, que estava a falar com o assassino – o senhor doutor assassino, o senhor engenheiro assassino, a senhora arquiteta assassina – mas de todas as vezes foi forçado a resignar-se ao nada e à sua elevada fineza.

– Bem vistas as coisas, é sempre assim – pensou, quando soube do arquivamento do processo.

Depois, meteu-se no Honda Civic e conduziu a passo de caracol até ao bar do costume. Bebeu muito e a seguir foi para casa. À noite, viu duas telenovelas de seguida, uma na TVI outra na SIC, numa delas chorou por causa do reencontro entre dois personagens, e adormeceu no sofá com o televisor ligado.