Vinte-vinte

Fazendo uma retrospetiva de 2019, num esforço para não me aborrecer enquanto ocupava sozinha uma sala de espera, tive que aceitar as evidências de que no ano passado cedi com demasiada facilidade a várias tentações.

Foi tentador julgar os outros à luz da minha própria realidade, intoxicada por um moralismo precipitado e esquecendo-me de que não vivo as suas vidas, nem conheço as circunstâncias passadas ou presentes que condicionam as suas atitudes.

Foi, muitas vezes, tentador arranjar desculpas para isolar-me. Para habilmente desviar-me de situações incómodas, de conversas sobre assuntos sérios e de pessoas chatas como a senhorinha faladora cujo casaco cheirava a mofo e a quem respondi apenas com monossílabos, rezando para que o autocarro viesse logo salvar-me.

Foi recorrentemente tentador desligar o alarme do telemóvel e continuar debaixo das mantas, desmarcar o dentista e os exames, adiar os jantares com amigos, cancelar a inscrição num curso novo e ir deixando os planos para um depois que nunca chega.

Foi tentador ceder às escolhas mais fáceis, enfeitar a casa com flores de plástico, comprar legumes congelados em vez de acordar cedo e ir à praça, convencer-me inúmeras vezes que “é só mais um”. Aliás, não há frase que soe mais a mentira do que essa, seja um joguinho no telemóvel, um ferrero rocher ou um cigarro.

Admito com vergonha que foi tentador desistir, não acabar aquilo que cheia de entusiasmo comecei, deixando as brasas arrefecerem quando as coisas se complicaram e quando o destino emudeceu, tendo como única resposta o silêncio.

Foi tentador manter velhos hábitos, vícios e manias, conformar-me com o que já vai custando cada vez mais mudar e recorrendo ao argumento fatalista de ter nascido assim... fazer o quê?

Neste novo ano, é quase certo que vou encontrar as mesmas tentações e fico contente por ter mais uma chance de resistir-lhes, ter mais uma ficha para mais uma volta no carrocel. Talvez seja por isso que ‘Vinte-vinte’ me soe como uma repetição.