Muito obrigado pela atenção!


Uma vez, em Moçambique, um amigo meu emprestou-me o carro – um Mitsubishi Pick Up – e eu rodei 400 quilómetros por ali abaixo, sempre a abrir, da Alta Zambézia à praia de Zalala, onde passei uns dias estupendos, o corpo no Índico, a cabeça no infinito, e depois tornei a casa pelo mesmo caminho, mais 400 quilómetros para cima, sempre a abrir, até que numa curva da estrada, algures entre Nampevo e Errego, fui surpreendido pelo pôr-do-sol. 
Parei o carro de repente e perdi a alma em tão profunda e vasta e intensa beleza e fiquei ali uma eternidade suspenso no pasmo, do princípio ao fim do tempo e do espaço em mim, a pensar assim:

– Nunca hei de encontrar palavras para dizer isto.

Depois, pouco a pouco, ganhei respiração e discernimento e disse em voz alta ao mundo e à luz do mundo diante de mim:

– Muito obrigado pela atenção!

Engatei a primeira e segui viagem sozinho da cor do fogo rumo à noite em África – uma noite sempre primordial, às vezes negra, às vezes brilhante, como a arca da memória e do esquecimento dentro de cada um – e quando finalmente cheguei a casa, uma palhota perdida no sopé dos Montes Namuli, percebi que não há explicação para o mundo, não há explicação para o mundo.

A palavra é igual ao silêncio. O silêncio imita a voz. A voz é nada e nada é tudo o que nos cerca e aperta e liberta. O resto é espera, esperança e a morte que vem a caminho, ela vem a caminho, a morte a rasgar os trilhos do ser até nos encontrar na curva da estrada.

Então retomei uma promessa antiga e recorrente:

– Vou calar-me para sempre.

E insisti:

– Nunca mais escrevo uma palavra.

Ficou a jura, sobrou a mentira.

Em 2015 comecei a escrever estas crónicas, uma por semana sem interrupção, fui escrevendo e escrevendo, tanto e tanto que acabei por dizer quase tudo, a minha vida esticada de fio a pavio, inteira e esventrada até ser nada, outras coisas também nada, alma e pensamento e nada, filosofia de meia tigela, alguma poesia, um ou outro grito de desespero, puta que pariu, raios partam nada, nada, o perigo e o deslumbramento, os lugares da minha origem e a terra inteira do meu morrer, a terra inteira do meu morrer, os meus antepassados, todo o meu ódio, todo o meu amor e o vou ser, vou acontecer, tudo, nada, nada, nada…

E, de repente, antes do ponto final, sempre antes do ponto final, sempre de repente, aparece alguém, um amigo ou então uma pessoa que não conheço de lado nenhum, como o mistério da vida, vem ter comigo, aborda-me na rua e diz que gosta de ler as minhas crónicas, assim com genuidade, com simplicidade:

– Gosto muito de ler a suas crónicas.

Há dias, por exemplo, uma senhora que eu nunca tinha visto teceu-me um elogio enorme e falou dos meus textos como se fossem música, palavras encantatórias, disse ela, e outras coisas ainda mais encantatórias – é o que me dizem antes do ponto final – e eu fico sem saber o que dizer, fico sem explicação, acabrunhado, tímido como o primeiro amanhecer, melancólico como o último anoitecer, a pensar que desconheço na totalidade até aonde vai e me leva a escrita.

Já quase no final do ano, encontrei um amigo numa festa e ele disse-me assim:

– Tu escreves pa caraças (a palavra usada foi outra, mas aqui fica esta). Não pares!

Eu, porém, paro. Paro de repente e inexorável diante do outro. Paro. O outro é a luz do mundo em mim. E então digo a todos tudo o que tenho para dizer ao mundo:

– Muito obrigado pela atenção!