Requiem pelo futuro

E eu penso a casa e a luz e os dias. E eu penso o primeiro dia e logo o último se sobrepõe. E eu penso o sorriso e o teu corpo a escrever vida e logo a morte se anuncia. E os teus passos certos na casa já só são possíveis nos meus.

E eu penso o amanhecer e o sol da tarde a entrar pelas janelas amplas. Mas, mais rápido do que o pensamento, surge o sangue e o meu nome gritado por dentro da casa. E eu subo os degraus a correr de urgência e de medo. E tu ainda estás incrédulo de tanto que estava dentro e agora está fora. Tudo está coberto do interior das tuas veias. E as minhas mãos subitamente certas a tentar manter a vida e o rio vermelho dentro das margens.

E eu penso que ainda não é o fim. E tu pensas que ainda não é o fim e voltamos a acreditar e sorrimos e tu dizes que eu estive à altura. E eu penso que altura tem este susto e temo cair e seguro-me a ti. E, dentro de tudo o que se anuncia, ainda fazemos planos, ainda percorremos a estrada, ainda vamos a tantos lugares, ainda tens tantas memórias para substituir por hoje.

E eu penso no abraço e na força dos bravos recortada a letras negras na parede. E eu dou-te a minha mão e tudo o que de dentro de mim ainda te chama. E eu tento manter-te deste lado da vida. E tu tentas ficar. Sei que queres ficar. E eu tento contigo.

E eu penso o mar e tu dizes o mar e levas-me até junto dele. E eu tiro-te uma fotografia e tu falas do meu olhar que é o teu. "Eu pelo olhar da minha...". E alguém diz que bate todos os filtros. E nós já sem filtros, nem rede, já quase sem chão.

E eu viro-me apenas um pouco para o lado e tu pedes que eu regresse, que não aguentas sem mim. E eu volto porque, na verdade, já não sei outro caminho que não seja o teu. Já não aguento sem ti.

E tu dizes são tempos estranhos estes. E eu não digo nada porque tenho medo. Um medo enorme, uma vontade de fugir. Mas depois tu olhas e sorris. E eu penso e sei que já não há lugar para fugir que não seja para dentro de ti, para dentro de nós, para dentro deste fim que se torna cada vez mais visível.
E eu substituo os meus passos pelos teus, a minha respiração pela tua, a minha vigília pelos teus olhos abertos no vazio. E atravessamos o quarto como quem atravessa o mar. E eu faço o que tenho a fazer e que tu já não consegues, e tu encostas a tua cabeça ao meu corpo e eu abraço-te e comovo-me. E amo por hoje e por todos os dias por vir. Amo até quando ainda não existíamos um no outro. E vou amar ainda quando já só a memória persistir naquela estação da primeira espera.

E eu penso os dias seguintes e já nem consigo pensar o tanto que nos naufragou. E eu penso a madrugada em que tu sufocavas e eu salvava-te. E eu penso que poderia continuar a salvar-te até ao infinito, não fora a falha trágica do corpo que vence o espírito a vontade e o amor.

E eu penso a tua última respiração entre as minhas mãos. E eu penso o silêncio que tomou conta do mundo naquele momento.

E eu penso que voltas a respirar, mas nada. Tu já não voltas, nem a respiração dentro de ti, nem a vida dentro de mim, nem os dias dentro de nós.

E eu já não penso nada a não ser no desacerto da imensa solidão que é esperar que voltes a respirar.

Sem agenda, nem esperança, vem aí o primeiro ano da ausência. Tu dirias: que tempos estranhos estes. Ou dirias que tudo isto é ficção e que nada mais importa.

Raquel Gonçalves escreve
à segunda-feira, todas as semana