Momentos que não nasceram para durar

Para a maioria das pessoas, em tantas casas por esse mundo fora, hoje é um dia muito especial. Um dia para abrir a porta às velhas memórias e convidá-las a entrar. Mas um dia também para assistir ao nascimento de novas memórias, acabadinhas de criar.

No Natal, eu aproveito ainda para relembrar as pessoas que me ensinaram a apreciar o que é efêmero. E a parar para apreciar aquilo que não nasceu para durar, a não ser na nossa memória, isto se a tratarmos bem. E os momentos não nasceram para durar.

Sabendo disso, dedico-me alegremente à tarefa de guardar o que é breve, fugaz e passageiro. Como pequenas rosas feitas com miolo de pão amassado. Como longos poemas escritos em guardanapos e toalhas de papel, com as rimas convivendo com vincos e nódoas de vinho. Como tatuagens na pele feitas com uma caneta Bic e com a validade de um banho.

Encho baús com fotografias; escrevo páginas e páginas em diários; em aquarela faço com que um por do sol nunca mais acabe; compro o DVD do concerto para reviver os saltos que dei ao vivo; e assim vou criando uma espécie de ‘momentoteca’ privada.

Porque das poucas certezas que temos nesta vida é a certeza de que tudo passa. As lágrimas de saudade que escorrem a direito são tão momentâneas como aquelas lágrimas que saltam do canto do olho, na última gargalhada de uma longa série. As primeiras doem, mas passam. E as segundas são uma maravilha, mas passam também. Acho muito bom, reconfortante até, esta certeza: felizes ou tristes, leves ou pesados, os momentos não nasceram para durar.

Ter a consciência de que o que viverei neste Natal é frágil, perecível e tem data de fim, faz com que aproveite tudo mais intensamente. É assim como um gelado que se vai se derreter sozinho à minha frente se não for lá com a colher.

Passa de realidade a lembrança. É promessa que não se cumpre.
Resta-me viver cada momento na sua hora. Até mesmo os menos bons devem ser vividos na hora, enquanto ainda fumegam. Nem por antecipação nem requentados.

Resta-me fazer com que os momentos valham a pena. Este, agora, e não o outro. Este, agora, e não o que já passou ou o que ainda há de vir. Porque os momentos não nasceram para durar.