Aquele que transporta a luz

De repente vem da serra um frio do caraças, trovões, uma ventania do estupor, chuva, neve lá em cima e eu acordo sobressaltado no meio da noite. Cheira-me a cadáver dentro de casa. É o cheiro do meu acordar – intenso, nauseabundo. Quase vomito. Há mortos aqui ou talvez aqui seja apenas no sonho. Não sei. Cheira-me a cadáver e eu acordo outra vez.

Uma rajada de vento abica cântaros no quintal. O vento urra. Tudo parece frágil à sua passagem e eu imagino chapas de zinco a esvoaçar – era um dos meus grandes medos na infância – chapas de zinco a voar no meio do temporal. Eu a caminho da escola, a correr para apanhar a camioneta, e de repente vem uma pelo ar e zás, arranca-me a cabeça.

Acordo outra vez.

Meu Deus, cheira-me a cadáver dentro de casa. Há gente morta aqui.

– Calma, Duarte! – digo em voz alta. – Calma. Foi um pesadelo. Ninguém morreu, poça! Ninguém morreu! Está tudo bem!

Mas a sensação persiste – estranha sensação – e depois parece-me que estou a mais no mundo, não caibo nele, neste mundo onde todos existem na conta certa do que há entre a vida e a morte – território vasto por onde se espraia a condição humana, da mais longínqua tristeza ao extremo mais distante da alegria… É muita filosofia, porra! E tanta poesia!

– Calma, Duarte, calma! Ainda estás a sonhar! – Digo outra vez em voz alta.

E depois penso em bonecos. Esta é uma época muito propícia a bonecos. Vejo-os em toda a parte. Nós e os bonecos. Ou talvez: nós, os bonecos. Assenta melhor: nós, os bonecos. Além disso, explica quase tudo sobre a solidão do indivíduo e o estado das coisas. Não vos parece? Nós, os bonecos… Ou será que, como dizia o outro, viver torna indistinta a distinção entre nada e coisa nenhuma? Não foi bem assim que ele disse, mas não faz mal.

Acordo atordoado e cheira-me a cadáver dentro de casa e isso assusta-me. Tanta ansiedade no meu coração. O meu pai está doente e dorme no quarto ao lado. Ele diz que não tem medo de morrer, mas eu tenho medo de que ele morra, tenho medo de morrer também. Ele está sempre a dizer que ninguém é deste mundo, mas eu digo não, não é verdade. Eu digo somos todos deste mundo, mesmo quando o tempo acaba. Somos sempre deste mundo.

O vento abranda um instante, não mais que um instante. Oiço passos no quintal e vozes também. Reconheço-os. São os passos e as vozes da minha mãe e da minha tia Teresa, a falar do futuro e das flores como se fosse tudo a mesma coisa.

A minha mãe a dizer:

– Estou tão preocupada com aquele pequeno.

E a tia Teresa a sossegá-la:

– Deixa-o viver. Ele vai atinar mais cedo ou mais tarde.

O vento ruge outra vez e a minha mãe, ainda agora aqui, morreu há 25 anos, a tia Teresa partiu há nove, mas o vento trouxe-as de volta ao jardim e ao debate sobre o meu desassossego, vieram aquietar-me, mulheres da minha vida, vieram apagar em mim o cheiro a cadáver dentro de casa e afirmar a chegada da nova estação, exatamente como a vi ao abrir a porta, intensa e vigorosa, o céu carregado de nuvens e depois repleto de aberturas, as árvores em agitação constante, o frio a rasgar a luz da manhã e a chuva a cair lucífera.

E eu, lucífero como a chuva, faço-me ao dia.