Brincar contigo

Voltei a brincar, despertei a criança que sempre existiu em mim e eu dizia nunca ter tempo para tal. Desde que o meu filho nasceu, como se diz, um fait divers que a vida muda drasticamente.

Não sei se foi para melhor ou para pior, a verdade é que me divirto de maneiras que já pensava esquecidas.

Quando ele diz: “papá, quero pintar na cara um dragão…” lá vou eu comprar as tintas faciais para a mãe pintar, pois ela é que tem a nota artística, ao mesmo tempo, eu também quero brincar e pinto de Joker… Aqui dá-se uma batalha de Nerfs pela corredora, pela sala e pelos vários quartos. Uma batalha em que vão pelo ar as balas de esponja e em que a gata se esconde para não apanhar com fogo cruzado. É claro que muitos vão dizer, mas brincas com “armas” em casa… Bem… É um pouco diferente, faz parte de melhorar a motricidade fina, mas também a coordenação motora de todos nós. Na verdade, é isso que fazemos.

Parte-se-me o coração quando o meu companheiro de lutas e brincadeiras fica com os olhos em baixo, e com alguma doença. Este fim-de-semana, apesar das inúmeras atividades que fizemos, ele estava doente, mas sempre que lhe dizia: “vamos brincar ao bingo” ou “vamos brincar às nerfs” ou “vamos brincar a qualquer coisa…” Ele arregalava os olhos e dizia: “vamos”, mas depois, rapidamente, emornecia com os doidóis na garganta, na barriga ou em outro lugar qualquer.

Confesso que, apesar de querer que ele fique sempre pequenino para poder brincar, abraçar, beijar, sem que ele fique envergonhado, que ele venha a correr para os meus braços, sem ficar embaraçado à frente dos amigos…,   confesso que desejo que cresça para podermos começar a jogar Playstation juntos… Eu ganhar-lhe no FIFA… ‘Tá bem… Por vezes vou deixá-lo ganhar.

Voltando um pouco atrás, quando chego à creche, para o ir buscar, refira-se, porque, para o deixar é sempre um drama dele e da mãe.  Mas pronto… Quando chego à creche e consigo ir a dentro buscá-lo, é uma felicidade enorme vê-lo a correr para abraçar as minhas pernas ou quando baixo o meu pescoço, é enorme o orgulho em ver-me olhando para os seus amiguinhos. Temos de sentir estes momentos, pois, no amanhã, ele já não fará nada disto e ficará envergonhado de abraçar-me, sobretudo naquela fase em que os filhos se afastam para crescer, até que, já crescidos, voltam de novo ao ninho paterno.

Tudo isto transporta-me para uma passagem de um livro de Tolentino Mendonça em que fala da figura do pai e diz: “Os estereótipos culturais, os resíduos de modelos autoritários, os tiques marialvas ou a timidez afastam os pais da palavra aberta e sentida, da confidência ou de expressões de afeto tão básicas como um abraço. A maior parte de nós não chega a dizer ao pai como o ama, nem a escutar da parte dele qualquer coisa semelhante.”

Eu espero ser diferente, enquanto pai, mas também um pouco como filho. Por isso, dizer que amo o meu filho, tal como amo o meu pai. Aproveite ao ler este artigo e tente ser esse filho, filha diferente a partir da nossa cultura!

Post Scriptum 1: Atenção, pedagogos, especialistas e afins… Em casa também dizemos que não a várias coisas, não é à vontade do menino ou, como diria a mãe, não é à vontade dos “meninos”.

Post Scriptum 2: Infelizmente, o Cardeal José Tolentino Mendonça não ganhou o Prémio Pessoa deste ano, no entanto, no próximo ano, o Movimento Madeira-Autonomia voltará a propô-lo.

Post Scrimptum 3: Aproveito para dar os parabéns ao Tiago Rodrigues por ter ganho o Prémio Pessoa.