O nosso reino

Seis voltas ao quintal. Seis longas voltas ao quintal de quando éramos pequenos. Esse quintal que agora está reduzido porque o espaço foi, entretanto, conquistado pela casa.

A casa como corpo a crescer, a ocupar o lugar do quintal que ficou mais pequeno à medida que crescíamos.
Já não há o lugar da casota do Rex, nem grande parte do território onde os gatos se deitavam pela tarde a aproveitarem a memória do sol nas pedras. Já não há o lugar onde esfolei os joelhos pela primeira vez.

A casa ocupou o lugar do quintal que agora está reduzido a uma faixa onde já pouco bate o sol e onde já não se passeiam os gatos, os nossos e os dos vizinhos.

São assim os gatos. Há o nosso território e o deles e nem sempre as fronteiras são coincidentes. Raramente as fronteiras coincidem, porque a medida dos gatos não se mede pelas leis dos homens e os rigores da propriedade. Já não há parte do corrimão onde ensaiávamos a coragem de enfrentar o medo de cair e por onde as bolas saltavam o muro para a casa da vizinha.
Mas, com esforço, ainda nos vejo entre as duas barras de ferro verde. As nãos a segurarem na superior e as pernas penduradas no vazio a desafiarem o chão vários metros abaixo.

As nossas pernas a balouçarem na varanda e os olhos a marcarem os limites do nosso reino.

A casa ficava ao cimo da escadaria e era dali que se via mais longe. Reinávamos sobre as coisas visíveis e invisíveis. Sobretudo sobre as coisas invisíveis, porque não há território mais concreto do que o do coração e o da vontade.

E a nossa vontade não tinha o tamanho das coisas dos homens. Nisso éramos como os gatos: até onde estendíamos o pêlo e as patas, sobretudo até onde estendíamos o desejo, era tudo nosso. Tudo o nosso reino.
Um reino de bichos que éramos nós. Sempre fomos assim, territoriais como os bichos e o nosso reino não tinha os limites que lhe davam os adultos.
Se para eles uma escada era uma escada. Para nós era uma montanha, ou uma longa pista na qual nos lançávamos para o infinito e mais além.

Sentados dentro de caixotes velhos, de tábuas movidas a sabão azul, de banheiras transformadas em carros ou naves supersónicas.

Era dali, do nosso reino, que haveríamos de conquistar o mundo.

Pouco importa, por isso, que a casa tenha ocupado o espaço do quintal. Ele está impresso na nossa pele e no coração ainda a bater do lado onde as coisas permanecem como memória.

Com um pouco da magia do passado, ainda lá está o Rex e a casota, a cauda a abanar e a tosse que o levou no fim. Ainda lá estão os gatos nas pedras com a memória do sol. Ainda lá estão as nossas pernas e o coração a ditar os limites do nosso reino.

Ainda lá está o reino intacto, ainda lá estamos nós. Porque no fim como no princípio, apenas ficam as coisas que nos fizeram. E nem sempre são as coisas reais. Não há nada mais real do que aquilo que nos fica entre a cabeça e coração. O nosso reino.

 

Raquel Gonçalves escreve
à segunda-feira, todas as semanas