Bang! Bang!

Quando eu era miúdo, os meus presentes de Natal – e os da minha irmã também – eram estripados antes da Páscoa. Alguns ainda duravam até ao verão, mas daí não passavam de certeza absoluta. A aventura das férias grandes na fazenda do avô, em Santo António, dava cabo de tudo e o novo ano letivo arrancava sempre a zero no que toca a brinquedos, coisa que, para dizer a verdade, pouco nos importava. E era escusado chorar por mais, porque eles não vinham a não ser mesmo em épocas festivas, ou seja, no Natal e no dia dos anos. Quando os de fábrica morriam, a gente fabricava logo outros à mão. Todos tinham vida curta.

Carrinhos, aviões, barcos e submarinos, pistolas de cowboy e o mais que fosse era tudo desmontado peça por peça, passada a fase do pasmo e do amor inicial, só para ver o que tinham dentro e como funcionavam, coisa que resultava sempre numa grande desilusão, pois o interior dos brinquedos – e de quase tudo o que conheci por aí – é composto essencialmente por vazio. Entretanto, a reconstrução corria mal, sobravam componentes e aquilo ficava perro, perdia o brilho, em três tempos era nada.

As bonecas da minha irmã eram submetidas a cirurgias atrozes, quase sempre com o seu consentimento, pois também ela se fartava depressa dos brinquedos. O primeiro passo da operação consistia em abrir a barriga com o canivete (naquela altura todos os miúdos tinham um) e lá ficava a boneca de barriga aberta durante uns dias, a gente pôr comida e bebida lá dentro e a fazer curativos e depois a doença piorava, coitada, e então a boneca acabava totalmente esventrada, cabeça aberta para ver o mecanismo dos olhos, pernas e braços trocados, cabelo tosquiado, tronco empalado, voos de canto a canto nos poios.

Nada chegou à vida adulta. Nem carros, nem bonecas. Apenas a memória.

Saí de casa e fui para a paragem e estava lá a pensar nisto, na memória como uma coisa física, por exemplo, uma dor – há dores que tocam no corpo mas são da alma, dores de pura existência – e depois o autocarro nunca mais vinha – nem Jamboto 12, nem Jamboto 13 – e eu ali especado a observar a minha casa, situada numa curva da Estrada Comandante Camacho de Freitas, onde o sol nunca bate antes das dez da manhã, a minha casa ainda sem luz, a ver também o casario que vai pela ribeira acima e a igreja da Visitação e lá mais no alto dois troços da cota 500 e depois a serra ainda mais altaneira e o bicho do Cidrão também – quase o vi, caramba, quase o vi.

E pensava: Quando olho para o mundo, o mundo também olha para mim. É como o abismo. Faz-me sentir que estou sempre disponível para partir. E vou até ao fim. Vou e depois regresso com a sensação de que o mundo é como um brinquedo e sinto-me perdido, não sei o que diga, desmonto-o peça por peça em cada viagem, o mecanismo lá dentro é simples, em grande parte oco, mas por fora é tudo muito complicado e vistoso, pelo que sobram sempre beleza e fragmentos quando o refaço.

Uma vez, quando eu vivia em África, perguntaram-me de que tinha mais saudades, ao cabo de tanto tempo sem ir a casa. E eu respondi:

– Das minhas sapatilhas All Star vermelhas.

Pois é. Sempre que sou mais rápido do que a sombra, disparo contra mim. Bang! Bang! Só por sorte sobrevivo. Os outros, pelo que vejo, escapam sempre ilesos, alma fina, vida limpa. E muitos ainda guardam os brinquedos da infância, assim como eu guardo a memória de mim e do mundo.