A manifesta ação

Há mais de um ano que o nome Greta Thunberg passou a fazer parte do nosso dia a dia graças a uma endurance notável na agenda noticiosa e a um movimento extremado de amor/ódio nas redes sociais. Se já era tema recorrente de comentários de café mais ou menos inflamados, a recente viagem da jovem a Madrid, com passagem pelos Açores e por Lisboa, rumo à Cimeira da ONU sobre o Clima (COP25), só veio trazer mais conteúdo fresquinho para os debates.
   Considero verdadeiramente admirável a sua iniciativa de protesto pacífico às sextas-feiras e a disciplina e determinação que parece dedicar à causa ambiental. O facto de ter ‘ativado o ativismo’ de inúmeros jovens em vários países e obrigado as instituições governamentais a debaterem o assunto parecem-me ser, para já, os maiores e únicos ganhos. O ambiente, esse continua no prejuízo.
   Por isso achei a mais lúcida de todas as declarações de Greta, desde o início do movimento Fridays For Future, aquela que foi proferida numa conferência de imprensa em Madrid: “O que queremos é ação e isso ainda não aconteceu. Desse ponto de vista, não alcançámos nada.”
   Mas, assim como são exigidas ações concretas aos políticos, acredito que também nós temos um papel individual e urgente a desempenhar, que não passa exclusivamente por manifestarmo-nos.
   Com a mesma idade da Greta, eu também era ativista ambiental e também tinha detratores como ela, que me chamavam de ‘eco-chata’. Integrei grupos que limpavam o lixo das praias; participei em projetos de reflorestação de zonas ardidas; doava parte da minha mesada para a Greenpeace (os heróis da minha adolescência); fiz campanha contra embalagens de spray porque destruíam a camada de ozono (a maior ameaça na altura) e apresentei com as minhas amigas um trabalho de pesquisa sobre a soja como substituto da carne bovina, ao qual pomposamente chamámos de ‘o alimento do futuro’. Nas horas vagas, andava atrás dos colegas que deitavam lixo para o chão, e quando o faziam, eu apanhava o lixo e os repreendia. Acho que ‘eco-chata’ era um título mais do que justo.
   Nunca participei em nenhuma manifestação em defesa do ambiente, nem em defesa de qualquer outra causa, mas não tenho nada contra quem o faz nem desmereço os benefícios da consciencialização. Entristece-me apenas os casos em que o contributo individual fica-se por aí e que o ativismo não seja mais... ativo, digamos assim.
   Como os cerca de 860 alunos e 96 professores e auxiliares do ensino público, privado e profissional de Monção que plantaram três mil árvores autóctones em quatro freguesias do município afetadas pelos incêndios de 2017. Ou como os voluntários da Associação ‘Brigada do Mar’ que estimam ter recolhido mais de 6 toneladas de lixo das margens do tio Tejo.
   São apenas dois exemplos de ações que decorreram na mesma altura que a Cimeira da ONU sobre o Clima.
   Podiam ter ido a Madrid manifestar-se? Podiam. Mas não era mesma coisa.