Defenestro, defenestras, defenestra…

Defenestrar. Quando eu dava aulas de Português em África, a primeira do ano em cada turma começava com a palavra defenestrar. Nunca ninguém sabia o significado e tinham dificuldade em pronunciá-la. Então, eu mandava um aluno à biblioteca buscar o dicionário, para a gente esventrá-la e ver o que tinha dentro. Uma vez, por exemplo, pedi ao Búlgaro Móvel, um miúdo atarracado cheio de vida – o seu nome, por mais incrível que pareça, era mesmo Búlgaro Móvel – e lá veio ele com o grosso volume debaixo do braço.

Eu disse:

– Procura a palavra e lê em voz alta.

Aquilo demorou um bocado, folhas para a frente, folhas para trás, os outros já a colaborar na busca, saliva na ponta do dedo, páginas para trás, páginas para a frente, até que por fim encontrou-a:

– Defenestrar: Lançar violentamente de uma janela ou varanda para a rua.

E eu – entretanto tinha atravessado a sala até à janela – disse lá do fundo:

– Isso é o que vos vai acontecer sempre que tiverem negativa num teste de Português.

Os alunos riam-se imenso com esta introdução à disciplina, à palavra, ao dicionário, ao desafio, à conjugação do verbo, e depois quando tinham negativa, fosse onde fosse, diziam que tinham sido defenestrados, exatamente como acontece comigo quando a existência me desgasta e eu passo noites em claro a querer desatar o nó górdio que liga o meu passado ao meu futuro, enquanto percorro o presente de peito aberto, a dizer o que sinto e penso e vivo na ponta da caneta.

Sou tão emocional, meu Deus! Tão intimista. Dispo-me com a escrita.

A infinitude da felicidade acima de tudo. Assim:

– Amo-te, meu amor! Amo-te!

E o abismo do ser também. O meu pai a dizer:

– Passei a noite inteira com uma zunida do estupor dentro dos ouvidos.

Fizera uma ressonância magnética e aquilo ficou-lhe quase vinte e quatro horas a ressoar na cabeça. Agora é assim. O serviço de hemato-oncologia passou a ser uma dependência lá de casa e a rotina introduziu análises, consultas, cintigrafia óssea, TAC, quimioterapia, o pai para cá e para lá nos corredores, olhar perdido na sala de espera, depois o braço cheio de nódoas negras estendido, a enfermeira de agulha em riste:

– Posso?

E ele:

– Faça o seu trabalho à vontade. Eu não tenho medo de morrer.

Nisto acenderam-se as luzes de Natal, tanto brilho na cidade e no mundo. Vem um amigo meu, que está desempregado, a passar um mau bocado, e diz-me assim:

– Enquanto um gajo vê as luzes, não pensa na escuridão.

Nem mais! Corroboro. Para dizer a verdade, sempre pensei assim, mesmo quando não tinha trabalho nem dinheiro, às vezes sequer um tostão, era vagabundo, vivia no fim do mundo. E agora que estou mais confortável continuo a pensar da mesma forma.

Cismo na tragédia geral da humanidade enquanto atravesso reuniões, assembleias, congressos, outros ajuntamentos que tais, vazios iguais, mas elejo sempre a sua comédia, ahahahah, os tipos a se insultarem uns aos outros do pé para a mão, o regimento para cá, os estatutos para lá, todo aquele mundo de certezas absolutas e intenções impolutas, vaidades, invejidades, seriedades também, pois com certeza, um barulho do caraças porque a lei não é clara, meus senhores, a lei não é clara. Interrupção para analisar a lei. Analisemo-la bem. Vamos lá ver. Claro, a lei não é clara. Mas temos aqui o regulamento, meus senhores, o regulamento sim, é claro, muito claro! E depois o que importa são as pessoas, meus senhores! O bem público acima de tudo!

Eu vou-me aproximando da janela, pé ante pé, em pensamento, apoio a mão no parapeito, avalio a altura, encho de ar o peito. E digo:

– Vou defenestrá-los todos.

Mas depois penso melhor e corrijo:

– Vou é defenestrar-me a mim mesmo.

E então atiro-me sobre a palavra, sem medo, exatamente como fez o Búlgaro Móvel naquele dia, lá em África.