Histórias para comer

Já todos ouvimos falar de histórias para dormir. Até o mercado editorial já descobriu o filão. Mas, na casa da minha infância, havia outro tipo de histórias: as histórias para comer.

Como diziam as tias velhas, éramos 'biqueiros'. Ou, como seria mais correto, éramos de uma resistência e persistência quase inabaláveis.

Se estávamos para aí virados, éramos capazes de ficar à frente do prato horas seguidas, muito depois da hora marcada no relógio para a refeição.

'Biqueiro' era o que então se chamava aos que tinham falta de apetite. A minha mãe queixava-se de que nunca soubera o que era isso de crianças que comiam de tudo, ou mesmo daquelas raras em que era preciso brigar para que parassem de comer.

Não, na minha casa, a hora da refeição era uma espécie de braço de ferro, a ver quem cedia mais rapidamente.

A coisa começava sempre da mesma maneira. A paciência inicial da minha mãe, admitia contar uma história para ver se a coisa escorregava melhor. E lá vinha a história, quase sempre uma invenção do momento ou uma adaptação de coisas escritas por outros, que eu na altura nem sabia o nome. Só sabia do som da voz da minha mãe a contá-las, enquanto nós mastigávamos, no mínimo, 180 vezes antes de deglutirmos o que era suposto.

A 'biqueirice' era de tal ordem que, em tempos mais críticos, acabava por nos levar ao médico. Tinha medo que os pequenos morressem de fome, ou que não crescessem, ou que coisa pior pudesse resultar daquela luta à mesa. Afinal, ainda se vivia um tempo em que os miúdos morriam com frequência. Ou no poço ou de pulmão fraco. De uma ou de outra forma, falhava-lhes a respiração. Medo maior de quem os trazia ao mundo na esperança de que por cá se mantivessem o tempo suficiente para crescerem.

Em desespero de causa, a minha mãe até nos contava dos meninos que morriam de fome em África, ou de um tempo em que, pelos vistos, até havia fome onde já na altura só se conhecia abundância, leite pasteurizado, iogurtes e gelatina. Uma e outra história eram profundamente ineficazes perante a nossa crónica falta de apetite. África e o tempo da fome eram territórios distantes para nós. Ainda era uma palavra antiga que nos definia a falha – éramos 'biqueiros' – mas tudo no nosso mundo já apontava para um futuro do qual apenas restava um léxico ultrapassado para definir problemas novos.

Já não éramos do tempo da fome, e a consciência social das injustiças da geografia mundial ainda não colhia adeptos entre os novos esfomeados por opção ou por excesso de abundância.

Agora que olho para trás, talvez o diagnóstico estivesse errado. Não era falta de apetite, era vontade de histórias. Sim, devia ser isso, o nosso apetite era pela fantasia, pelo som encantatório da voz da minha mãe, pela imaginação que aquecia à medida que a comida esfriava.

Agora quase que tenho a certeza que era isso mesmo. Há dias, na livraria, não resisti a comprar o livro de Alberto Manguel, Monstros Fabulosos – Drácula, Alice, Super-Homem e outros amigos literários. Nele, Manguel reconhece que aprendeu a sua experiência do mundo – amor, morte, amizade, perda, gratidão, desconcerto, angústia medo - com as personagens imaginárias. Reconhece ainda que o Pinóquio continua a perguntar-lhe porque é que, apesar do que a Fada Azul lhe disse, não basta ser honesto e bom para ser feliz. "E eu, tal como me acontecia lá longe e há tanto tempo, continuo sem encontrar resposta".

É isto: se a comida nos faz crescer num sentido, as histórias fazem-nos crescer num outro. E só assim se encontra o equilíbrio do mundo, que é sempre uma resposta por responder.