O Advento Cristão

A Liturgia da Igreja não pode ser compreendida sem relação ao tempo, ela nasce num momento da história, está ligada a uma experiência religiosa ou aos calendários, a liturgia cristã tem um seu modo de medir o tempo através de três níveis:  a história da salvação, o ano litúrgico e a celebração. O Novo Testamento fala-nos muitas vezes “do primeiro dia depois do sábado”, o dia em que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, o dia do acontecimento fundamental da fé cristã. 

A Páscoa e a fração do pão, ou seja, a Eucaristia, estão ligadas ao mesmo dia, isto é o primeiro dia da semana, ou o “dia do Senhor” ou domingo. A este juntou-se a sua vinda definitiva na glória. A esta vinda a Igreja associou a vinda de Jesus no seu nascimento, precedido pelo tempo litúrgico do Advento, temos assim o tempo de natal. A celebração cristã pertence à história da salvação, as festas que constituem o ano litúrgico são possibilidades concedidas por deus ao tempo dos homens para celebrarem a misericórdia divina em seu favor.

A palavra advento é uma palavra cristã que tem uma origem profana, designava na antiguidade a vinda anual da divindade ao seu templo para visitar os seus fiéis. Na linguagem cortesã o advento designava a primeira visita oficial de uma pessoa importante com atributos divinos, por exemplo a chegada do imperador Nero ou de Constantino. Na literatura cristã dos primeiros séculos usou-se a palavra Advento para designar a vinda de Cristo na sua humanidade, para coroar a sua obra redentora.

O Advento cristão teve a sua origem no Oriente e consistia num tempo de preparação para o baptismo que se administrava no dia da Epifania a 6 de janeiro, além da Vigília Pascal. No tempo do Império Romano uma das festas mais célebres era celebrada no solstício de inverno em honra do ‘deus sol’, que no ocidente se celebrava a 25 de dezembro com o nome de Natal.

A Igreja procurou cristianizar as festas pagãs, neste caso o nascimento de Jesus, o natal do Sol, administrando o baptismo como forma de cristianizar a crença oriental nos poderes miraculosos das águas do rio Nilo, no Egito. Na Gália e na Espanha, influenciados pelos costumes orientais, introduziram no ocidente o costume de batizar na Epifania e sentiram a necessidade de preparação ascética e penitencial para os fiéis e catecúmenos. O primeiro testemunho escrito que temos é o Santo Hilário, Bispo de Poitiers, por volta do ano 360, com um período de três semanas de preparação. Mais tarde, no ano 380 o Concílio de Saragoça determina que ninguém falte à Igreja nas três semanas que precedem a Epifania. No século V, na Gália, atual França, a festa de Natal adquiriu uma importância tão grande que o Bispo São martinho de Tours (490) estabeleceu para a sua igreja uma preparação de 40 dias com um jejum de três dias por semana. São Gregório Magno (640) reduziu o tempo do Advento a quatro semanas, a palavra Advento adquire o sentido bíblico de parusia, ou seja, vinda no fim dos tempos, o profeta Elias e São João Batista tornam-se então as duas grandes figuras da liturgia deste tempo. O tempo do Advento e, na madeira com as Missas do Parto, é a ocasião oportuna para uma preparação para o Natal do Salvador e, também, é tempo de espera da vinda definitiva de Jesus Cristo que realiza a verdadeira libertação da humanidade redimida.