Sr. João

Uma grade de cerveja a fazer de banco e o bordão a servir de apoio à cabeça e aos desaforos da alma. Descansava à porta da venda, costas apoiadas na parede, como se fosse um postal parado no tempo. Toda a vida se sentara ali a ouvir cumprimentos, que devolvia com ligeiros acenos de cabeça, a trocar uns dedos de conversa, a escutar as vidas discorridas pelos que tinham língua mais solta, a testemunhar zaragatas e a ver a canalha crescer, que lhe aparecia anos depois à frente e já com descendência.

Sabia mais do que mostrava e, quando se fazia escutar, ouviam-no com parcimónia. Apesar das horas de taberna, nunca o tinham visto a ultrapassar limites, numa terra onde o copo começava como estimulante e acabava como paliativo da vida.

A aldeia habituou-se à sua presença discreta, sempre à direita da porta da venda e da vida. Assistiu a idas e vindas, a nascimentos e mortes, a milagres e tragédias. Viu as mulheres ganharem terreno público e os homens perderem tiques de autoritarismo e machismo. E quando ouvia queixas de que noutro tempo é que era encolhia os ombros e dizia, conformado e satisfeito, agora é assim. Defendia que a vida era demasiado curta para se viver com o coração duro e mesmo quando o acicatavam e lhe tocavam no ponto fraco: - Então, o seu filho nunca mais veio? -lhe arrancavam qualquer esgar de amargura. – Está na vida dele, respondia, fingindo não ouvir à má-língua, que cuspia veneno contra a solidão em que vivia, numa preocupação passageira.
Era o envelhecer tranquilo, um barómetro dos dias que passam. Um dia entrou na venda de manhã, não se sentou à porta, pediu meio cales e não respondeu às insistências se estaria tudo bem. Ganhou em horas os anos todos que pareciam nunca ter passado por ele. Souberam depois que perdera o filho, no mesmo dia em que o senhor João desapareceu também.

Sandra Cardoso escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas