As pitangas já estão maduras

As pitangas já estão maduras. E as mangas já brilham que é tempo delas. Um pouco por toda a Angola, na beira dos caminhos. Na berma das estradas. Ao longo dos passeios. Em cada canto ou recanto vago, as mulheres, especialmente elas, exibem as frutas da época. E também as bananas, de todas as épocas, que frutificam o ano todo inteiro. Podia falar de mangas. E de pitangas, vermelhas, maduras, lustrosas. Podia. Mas não vou falar. Apenas. Só. De mangas.

Vou falar de fome. Vou falar de vinte milhões de pobres. Que, disseram as estatísticas de alguém, morrem à míngua em Angola.

Pobres. Qual o conceito de pobre? Quem criou o conceito e com base em que parâmetros? Em que medida? Europeia? Americana? Da FAO. Da ONU? Da UNICEF?  O que é um pobre em Portugal ou nos Estados Unidos?  Quem é e porque é realmente pobre? Um individuo que em Portugal, por exemplo, perde o emprego passa a ser um, mais um, desempregado. Possivelmente um candidato a pobre. A breve trecho.

E em Angola? É aí que reside a diferença. A grande. A diferença.

O “desempregado”, e aqui uso propositadamente as aspas, ou comas como lhes queiram chamar, vai para a berma de uma estrada. Monta uma prateleira com quatro tábuas e vende mangas. Lindas. Frescas. Lustrosas. Ou pintangas. Ou loengos. Ou mirangolos. Maboques. Cajajas. Cassussua. Múkua. Tamarindo. Nochas. Lossaku. Mungingi. Lumbula. Muxilu-xilu. Nomes de frutos dos quais o Ocidente, leia-se Europa, nunca ouviu falar. Muito menos provou. São frutos silvestres. Angolanos. Do mato como é hábito dizer-se. Espontâneos. E sem dono. Ou de dono desconhecido. Que nem sabe que, no seu quintal, no seu terreno, no seu espaço, e que espaços, crescem árvores, arbustos, que alimentam outros desconhecidos angolanos. Alimentam porque são vendidos. Alimentam por são consumidos. Vendidos com lucro total. Sem despesas. Colher. Vender. Receber. Sem taxas nem impostos.

Alimentam porque possuem qualidades únicas. Contêm vitaminas. Têm propriedades anticancerígenas. Antioxidantes.  São carnudas. Sumarentas. Polpudas.

Na beira da estrada o “desempregado” pode vender tudo. De tudo. Mangas? Tamarindos? Múkua? Nochas? O que quer mais? Sapatilhas? Patins em linha? Camisas? Cabides? Manuais escolares? Use a imaginação. Seja criativo.
Angola tem desempregados? Claro que sim. Tem pessoas que passam necessidades? Grandes necessidades? Claro que sim. Negá-lo seria tentar tapar o sol com a peneira. Mas Angola tem, também mil possibilidades de qualquer angolano encontrar uma. Duas. Muitas. Inúmeras formas de ultrapassar a falta de kwanzas. É tudo uma questão de imaginação. Vontade. Vontade de trabalhar. É que, como costuma dizer-se por aqui, em Angola enterra-se um pau no chão e ele começa a dar frutos.

Angola não é só petróleo.

É tempo das mangas e as pitangas já estão maduras.