O fogo e o dominó

Com quantas palavras se mata um homem? Com dez? Dez mil? Uma apenas? Ou não se matam homens com palavras, que palavras mais não são do que feridas sempre a sangrar, talvez punhais sempre a matar? Eu já morri muitas mortes em palavra. Para dizer a verdade, não faço outra coisa senão morrer em palavra. Todos os dias morro em palavra e tudo o que ficou para trás escrito – 221 crónicas – foi sempre a minha morte. Esta também. 222. Contar é sempre o fim. O silêncio é a vida em mim, o resto e o infinito também.

Afinal, com quantas palavras se mata um homem?

Não aponto o dedo a ninguém. A vida que tenho chega-me. Levanto bem alto a voz contra mim, elevo-me aos píncaros também. Estou nas zonas altas, o mundo passa. Desapareço em África, estou longe, muito longe. Conto uma história, acrescento um ponto. É verdade, parece mentira. É mentira, parece verdade. Não sei o que diga, digo sempre o mesmo. Reapareço na cidade, o mundo passa, passa depressa. Já fui tudo o que sou e morro sempre por tudo o que fui. Sou. Claro que sou.

Tudo pede um fim, um tempo de descanso, férias grandes como antigamente, um verão inteiro para compensar a inocência perdida e salvar a palavra do fogo. De facto, ardo todos os dias em palavra e cada crónica que escrevo é uma fogueira completa de mim, a sua luz e o seu crepitar, o calor que liberta e a sombra que projeta, a sua destruição – auto de fé e purificação – e depois a cinza é o que sobra do meu sonho.

Afinal, com quantas palavras se mata um homem? Ou não se matam homens com palavras, mas apenas com sonhos? Digam-me: com quantos sonhos se mata um homem? Com dez? Dez mil? Um apenas? Ou também não se matam homens com sonhos, que sonhos mais não são do que bocas sempre a gritar, talvez animais feridos sempre a agonizar.

– Cala-te, Duarte Caires! Cala-te! Não se percebe nada do que dizes! Cala-te!

E eu calo-me.

Felizmente, Deus vem visitar-me com bastante frequência, de modo que acabou por ser a minha solidão.

Um dia, por exemplo, Deus ficou a jogar dominó comigo e esqueceu-se de ir para o céu governar. O tipo que, entretanto, ficou lá cima encarregado de orientar aquilo na sua ausência bocejava sem fim, muito maçado com a demora, que era já uma eternidade.

A certa altura, mandou dois anjos à procura do Senhor e eles, obedientes como máquinas, voaram por uma escadaria abaixo e em menos de um fósforo – ou, para ser cínico, enquanto o Diabo esfrega um olho – aterraram aqui no planeta.

Um deles tinha a pele cor-de-rosa, olhos azuis celestiais, cabelo d’oiro encaracolado e vestia-se de branco. Andou à cata de Deus no interior dos canos das armas e dos esgotos, em desertos e países onde se morre à fome, revirou cadáveres feitos pela guerra, percorreu os subúrbios das grandes capitais, atravessou ilegalmente várias fronteiras, naufragou, falou com marginais, remexeu em caixotes do lixo e depois voltou para o céu, triste e desolado por não o ter achado em lado nenhum.

Ao seu lado, também combalido e enfiado, caminhava o outro anjo, de pele preta como o carvão e roupa da mesma cor, olhos vermelhos, cabelo negro. Este espreitara no interior das igrejas e dos sacrários, pelo buraco da fechadura e pela frincha mais estreita, atravessara campos floridos e montanhas distantes, frequentara os melhores lugares à face da Terra, visitara museus e salas de espetáculo, sítios de requinte e vaidade, outros de bondade também, todas as revieras, conversara com os líderes políticos, os grandes empresários, os maiores intelectuais e nada, não encontrara Deus em lado algum.

Quando chegaram ao céu, porém, Deus já estava sentado no trono. Tinha regressado enquanto andavam à sua procura, depois de ter perdido a partida de dominó comigo.