Aos mestres, com carinho

A propósito do recém-divulgado Relatório anual do Conselho Nacional de Educação, que identifica entre as principais preocupações o envelhecimento do corpo docente e a diminuição da atratividade dessa profissão junto dos jovens, dei por mim a pensar nos meus professores. A relembrar os seus nomes, rostos, situações marcantes... e a tentar calcular que idade teriam na altura em que os conheci. Um esforço que se revelou infrutífero já que aos olhos de uma criança ou adolescente, adulto é sinónimo de velho.

Talvez porque tive a sorte de viver experiências tão positivas e enriquecedoras com os meus professores, a revisitação dos tempos de escola fez-me também temer um futuro sem eles, uma sociedade onde essa função é desempenhada com recurso à inteligência artificial ou na qual os humanos já nascem todos autodidatas. Para já, preocupa-me a falta de vocação para lecionar e as razões concretas e justificáveis que estão na sua origem.

Isto da vocação também se pode chamar talento ou dom, e era isso que tinham alguns dos meus professores, os primeiros a virem-me à lembrança. Graças a eles, aprendi muito mais do que o que vinha nos livros e saía nos testes. Foram fundamentais para a formação do meu carácter, além de me terem estimulado e ajudado a encontrar o meu próprio caminho. Nenhum deles subiu em cima da mesa ou incentivou um clube de poesia, mas nem por isso deixaram de cumprir a sua missão.

Na escola primária, a ‘tia’ Maristela fazia envelopes coloridos com o nosso nome e enchia-os de pequenos papelinhos, cada um contendo uma sílaba para que pudéssemos formar palavras. O objetivo era criar palavras existentes mas de vez em quando lá aparecia uma combinação mais original. Ela divertia-se genuinamente quando isso acontecia e perguntava o que é que achávamos. Não criticava, não gozava connosco nem deixava ninguém gozar. Aceitava a ‘criatividade’ do aluno e explorava o possível significado e utilidade daquele novo vocábulo debatendo o assunto com a turma. Se calhar devo a ela a minha mania de inventar palavras novas.

Já no secundário, e a sofrer com a matemática, foi exatamente pelo professor dessa disciplina que tive uma paixoneta. Tão forte foi o devaneio ou tão descontroladas andavam as hormonas que cheguei mesmo a declarar-me e a dizer ao professor José Luís que queria casar-me com ele. Só passado muito tempo é que consegui avaliar a imensa sensibilidade e respeito que ele demonstrou perante tão constrangedora situação. No fundo, foi a mesma atitude acolhedora da tia Maristela: não se riu de mim, não me disse que era um disparate nem que esquecesse o assunto porque ele tinha mais o que fazer. Ouviu-me com atenção e tratou como sério o que para mim era mesmo um assunto sério. Depois, com paciência, explicou-me as razões pelas quais o ‘nosso casamento’ não podia acontecer. Ainda acrescentou que não devia ter pressa em casar e que qualidades devia procurar num parceiro. E eu cumpri à risca as suas recomendações.

São apenas dois exemplos do impacto que um professor com vocação pode ter na vida de um aluno. Que sejam assim os novos profissionais a engrossar a fila de uma tão urgente renovação.