Sobre a felicidade

Um destes dias falava da felicidade com alguém que declarava o quanto infeliz tinha sido uma outra pessoa.
  Pensei então, como penso agora, que a felicidade é uma matéria frágil. Fugaz, de caráter transitório. Não somos felizes de forma constante. Há, sem dúvida, pessoas que nos fazem felizes, momentos que nos tornam felizes, lugares onde fomos felizes. Há até tempos felizes.
  Mas há também todo o espaço que fica entre esses momentos em que fomos pessoalmente felizes. E esses podem até ser um sucedâneo quase eficaz da felicidade, mas já não é bem a nossa felicidade. É uma felicidade que ajuda a respirar, ou que permite que a respiração continue depois da apneia se instalar como único movimento possível.
  A ilusão de felicidade é o que permite afinal continuar. Mesmo que se saiba que já não é bem aquela felicidade que nos movia para a frente. Que contaminava tudo de uma beleza que não era real, mas que era real em nós.
  É tão mais fácil aceitar tudo quando se é feliz. Pessoalmente feliz. É tão mais fácil acreditar até no impossível quando essa felicidade nos transporta sem que quase seja preciso uma explicação.
  Há coisas que não se explicam. Que se sentem acima de tudo e que nos tornam de uma lucidez fantasiosa. Sabemos, por dentro, que a tragédia é um lugar certo, mas não queremos verdadeiramente saber. É coisa que não interessa quando somos pessoalmente felizes.
  Eu, tal como tu, sei do momento em que fui pessoalmente feliz. E sei de todos os momentos de que essa felicidade se fez. É uma felicidade feita de palavras, que depois se materializaram em lugares, em encontros, em viagens, em vida.
  Por conhecer essa geografia da felicidade, sei também do lugar em que a tragédia começou a fazer-se nítida. Sei que chovia. Sei que nessa tarde fazia vento junto ao mar, e que o dia quis estar de acordo com a tempestade que nos assolava por dentro de ti e que me ensinou a saber perder antes do jogo chegar ao fim.
  Lembro-me do abraço como se fosse o último. Lembro-me dos lugares que foram desaparecendo primeiro dentro de ti e depois dentro de nós. Marcávamos um ponto no mapa, mas já não havia mecanismos de lá chegar.
  Lembro-me do teu olhar perdido e do sorriso que persistia quando te dizia que tinha sido possível chegar ali e que ali era o único lugar que importava. Era o nosso lugar já de uma felicidade improvável, mas ainda desejada e perseguida.
  Lembro-me da tua mão na minha. Sempre. Até ao fim da felicidade.
  Lembro-me da última respiração entre as minhas mãos já tão vazias de felicidade.
  Sei hoje que a felicidade pode morrer de uma última respiração que, apesar de não ser a nossa, assinala, com uma nitidez dolorosa, o momento em que deixámos de ser pessoalmente felizes.
  É também isso que me diz este verão fora de tempo, que é ele mesmo uma impossibilidade. Uma daquelas impossibilidades como o sorriso e o músculo que lhe obedece depois da tua ausência. E como me surpreende sempre esse músculo que responde de forma tão obediente a uma memória de felicidade.