«Mudam-se os tempos»

Roubo meio verso ao Poeta, para falar da vida, dessa viagem que iniciamos no princípio de nós. Porque ela (como o mundo) é composta de mudanças, de partidas e de regressos, de despedidas e de acolhimentos, de portas que se fecham, de modo a que outras se possam abrir.

A mudança tira-nos o chão que os nossos pés já conhecem, desconstrói-nos, desorganiza-nos os sentires, desinstala-nos, coloca-nos em perspetiva – a nós e às nossas coisas, as de sempre, as que já fazemos sem pensar.

Damos conta da mudança dos tempos. E das palavras que inventamos para as novidades que chegam do lado das portas que se abriram. Vemos a primavera ficar bronzeada com o verão e o outono (nem o outono se parece com o da nossa infância) diluir-se com as chuvas verticais dos invernos (já não invernos como dantes, pois não?). Vemos as marés despentearem os calhaus e trazerem restos de outros lugares. Perdemo-nos dos pássaros calados (onde dormem os passarinhos, mãe?) e, um dia, percebemos que, afinal, já não somos exatamente como éramos ontem, sendo que o ontem tem muito mais tempo dentro do que tinha dantes.

A verdade é que isso não depende de nós. E revolta-nos, eu sei, a impossibilidade de controlar as mudanças. A terra gira sem nos pedir licença. A vida acaba, muitas vezes, sem pré-aviso. E acabamos por nos sentar, na soleira dos abismos, à espera de um qualquer nada que não nos doa em demasia.

Perdemos, assim, tanto céu estrelado, tantas mudanças da lua, tantas oportunidades de iniciar novas viagens, de empreender novas ações, de inaugurar outras vidas.

Afinal, é a mudança que faz andar o mundo. E a coragem de fechar a porta e de aceitar o resto do verso do Poeta: «mudam-se os tempos /mudam-se as vontades». Depois, é só rodar a chave da porta nova e recomeçar.