Um dia, no futuro, talvez...

O que pensar quando a morte começa a chegar a nós? A nós que ainda agora éramos apenas um bando de miúdos a desafiar o vento e as árvores. A desafiar a capacidade do corpo se fazer aos dias e ao tempo. Do corpo a se fazer com eles na verdadeira essência da vida. Aquela que só pode ser para sempre, porque não há ainda outra forma de o ser.

Juro que agora mesmo andávamos de coração sem sombras. Apenas eternidade e todas as possibilidades por dentro dela. E eram tantas como a nossa pele marcada pelas aventuras de sermos essa liberdade sem limites.

Um bando no verdadeiro sentido e também em todos os outros que o sentido de uma vida a começar transporta.

Feitos de nada mais do que possibilidade infinita. Sardas desenhadas pelo sol, feridas nos joelhos desenhadas pelas pedras e pelo casco duro das árvores. Às vezes também pelas bicicletas, pelos carros de ligamentos e esferas, pelas joeiras falhadas, pelas naves espaciais de sabão OMO.

Azedas a colar no céu da boca e teias de aranha por sobre o nosso sangue vermelho a correr. A magia de sabermos sarar num instante, a magia de sabermos apenas a vida e nada do seu fim.

Ao ver-te agora deitada nessa cama há um frio que se instala. Tu, uma de nós, tão próxima de tudo aquilo que desconhecíamos quando éramos conquistadores de território e de aventuras. Há um arrepio que vem desse tempo, dessa memória de qualquer coisa que fomos e que agora está mais próxima do fim.

Sim, há um momento em que todas as mortes são também a nossa. Uma morte reiterada pelo que agora conhecemos e pelo que antes era mentira ou ficção, ou desconhecimento que ainda é a armadura mais eficaz de todas.

Mesmo assim, quero acreditar que ainda transportas essa eternidade contigo. E nós também. Ainda ecoa o nosso riso e o canto das rãs no charco que já não existe, mas do qual sabemos o som por dentro da pele arrepiada.

As mãos ainda lá estão dentro da água parada a tentar agarrar os girinos, a tentar caçar lagartixas a nó, a tentar recolher lagartas que um dia serão borboletas. Tal como nós. Um dia teremos asas e nada mais do que a memória do voo. Um dia voltaremos a ser essa liberdade que nos colava a eternidade à temperatura do corpo. Como se fosse para sempre verão, ou então inverno num tempo em que ainda não nos importávamos com a chuva.

Ao ver-te agora nessa cama, quero acreditar que um dia, no futuro, talvez.... Sim um dia no futuro vamos todos ser livres, borboletas, heróis de capa a espada, princesas, ladrões dos bons, cowboys e índios. Tal e qual como já fomos. E será possível porque ainda sabemos o caminho e o som. E é só isso que é preciso para construir uma eternidade.