Cidadão Escorpião

Aqui vou eu, meus amigos, aqui vou eu, vou num carro de cesto, do Monte ao Livramento. É 11 de novembro, dia de São Martinho, verão também. Fiz 52 anos e esta foi uma prenda de mim para mim. A Pat vai comigo. Agora nada faz sentido se não for para partilhar com ela, mais ainda quando são coisas que acontecem pela primeira vez, como uma viagem de carro de cesto. Vamos juntos.

Os carreiros por ali abaixo à conversa um com o outro, assuntos corriqueiros lá da vida deles, e a gente bem agarrados logo na primeira curva, aquilo a ganhar velocidade e mais velocidade, a Pat a fazer força com as pernas e os pés para ver se conseguia travar, as mãos a suar, e eu a dizer:

– Deixa-te ir… deixa-te ir…

Eu com os olhos meio arregalados e um sorriso palerma de canto a canto, consciente de que não gosto de carrocéis nem de parques de diversões, o carro todo inclinado, o asfalto a luzir, nunca pensei que a embalagem fosse tanta, o carro quase a bater na parede, às vezes do lado esquerdo, às vezes do lado direito, os carreiros a falar um com o outro como se nada fosse e eu a dizer:

– Deixa-te ir… deixa-te ir…

Sabes, meu amor, é tão bom sentir-te aqui, hoje e sempre, é tão bom que estejas ao meu lado e que de mim saibas tudo quando me ouves dizer amo-te, é tão bom que saibas tudo o que já fui e o seu resto também, sua glória e sua ruína, o seu eco ainda, meu amor, meu amor, eu já fui um deserto, uma praça vazia na cidade e um louco que a atravessa, um país inteiro em guerra, um lugar encantado no fim do mundo, meu amor, meu amor, eu já fui uma promessa de viagem sem retorno, um vagabundo de cabelo comprido e roupa coçada, o pé descalço e a mente alada, eu já fui a primeira vez do nada e a última de cada coisa, fui todos os amores e todos os horrores, eu já fui uma noite sem fim e um dia infinito, meu amor, meu amor, agora tenho-te a meu lado, agora estás a meu lado.

A Pat a dizer:

– Isto vai bater! Ai, isto vai bater!

E eu:

– Deixa-te ir… deixa-te ir…

E agora tudo o que conta é o lugar da esperança para onde o futuro nos projeta e a viagem de carro de cesto também, eu e tu pelo Caminho do Monte abaixo, meu amor, meu amor, tudo o que eu quero é tempo de vida e sabedoria para nunca mais o dar por perdido, espaço em ti para edificar os sonhos mais lindos, um universo completo para unir as nossas constelações, meu amor, meu amor, agora tudo o que eu quero é ser água em tua terra, fundir o meu mistério na tua ambição, quero incendiar a minha intensidade na tua persistência e dividir toda a minha intuição pela tua responsabilidade, meu amor, meu amor, sinto-me tão feliz por te ter a meu lado, sinto-me tão feliz por estares a meu lado.

A certa altura, a inclinação da estrada abranda e os carreiros passam da parte de trás para a frente, para puxar o carro, fazem uma paragem, perguntam se queremos uma fotografia, um deles pede-nos o telemóvel, tira o chapéu e enfia-mo na cabeça, parecemos mesmo turistas, clique, já falta pouco, diz ele, e lá vai o carro outra vez a ganhar velocidade pelo caminho abaixo, a Pat sempre a fazer força para ver se o trava e eu sempre meio apalermado a dizer:

– Deixa-te ir… deixa-te ir…

Até ao fim, meu amor, até ao fim.

Quando a viagem terminou, eu perguntei aos carreiros pela eventual ocorrência de acidentes com os carros de cesto e um deles respondeu:

– Acidentes acontecem em todas as profissões.