Tenho asas!

O autocarro 720 faz lentamente o percurso Picheleira - Alto de Santo Amaro com a lotação a meio. 100% dos seus passageiros são velhinhos e viajam sentados, incluindo eu. É o final da tarde de um dia de semana e ainda não começou a hora de ponta. Um pequeno grupo entra na paragem do Arco do Cego e faz descer drasticamente a média etária daquele transporte público. Do grupo fazem parte dois rapazinhos que aparentam ter 7 ou 8 anos e que trazem mochilas volumosas às costas.

O mais alto dos miúdos, mais tímido e, deduzo, mais velho, senta-se logo no primeiro lugar livre que encontra. O mais baixo, mais agitado e, deduzo, mais novo, caminha pelo corredor vazio como que a inspecioná-lo. Quando chega aos últimos bancos dá meia volta e começa a correr, tirando de vez em quando o chupa-chupa da boca para gritar “tenho aaaaaaaasas!”.

O rapaz mais velho sorri, visivelmente divertido. Eu sorrio. Os outros passageiros sorriem, olhando uns para os outros com uma certa cumplicidade. A mesma cena repete-se duas ou três vezes, sempre com a mesma afirmação no seu clímax: “tenho aaaaaaaasas!”.

Como espetadores bem-comportados, acompanhamos tudo com atenção e sem fazer comentários. O que cada um de nós estava a pensar ficou para si mesmo. Ninguém a mexer no telemóvel, ninguém a fotografar nem a filmar.
Até que uma senhora que ia sentada nos primeiros bancos faz de MC e vira-se para trás para anunciar: “Acabou o recreio!”, ordenando depois ao Tomás que se sentasse imediatamente.

O pequeno pardalito para de voar e todos nós voltamos à terra também. Ele vai sentar-se ao pé do seu companheiro de viagem e leva no rosto aquela expressão única, inconfundível, de quem sabe que transgrediu e está satisfeito com o resultado. Conhece aquela espécie de sorriso malandro, meio irónico, que não se confunde com mais nenhum outro? É esse mesmo.

O recreio no autocarro durou pouco, escassos minutos entre paragens, mas o miúdo gozou-o enquanto pode.

Aprendamos a voar com o Tomás, a ter coragem para realizar pequenos (e grandes) desejos, a arriscar fazer o que nos dá na real gana apesar do que os outros vão dizer ou pensar.

Aprendamos com o Tomás a curtir o nosso recreio onde e quando conseguirmos, porque um dia, inevitavelmente, ele vai acabar.