Quantas vidas cabem num contentor?

Quantas vítimas cabem num contentor de lixo de Lisboa? Com certeza, a do bebé que foi lá colocado pela mãe pouco tempo depois de nascer. A fragilidade de uma vida assim descartada é chocante. O primeiro gesto, naquele momento em que somos todos mais coração do que cabeça, é o gesto de defender essa vida a começar e já com uma promessa de fim antes de qualquer início.

Mas naquele mesmo dia, aquele caixote de lixo acabou por ser o depósito visível de outras vidas que são apenas residuais na vida de uma cidade. A de uma rapariga de 22 anos, despojada de tudo, e com esse tudo também despojada do que damos por garantido: uma humanidade.

A humanidade que pretensamente nos diferencia afinal não é um dado adquirido.   Precisa de tanto para se conjugar e se concretizar. Precisa sobretudo de uma paisagem humana que nos devolva o que somos. 

Como exigir uma humanidade a essa multidão invisível que deambula pelas ruas, que faz casa com cartão e roupas imundas, que estende a mão à caridade, que nada tem a não ser o céu da cidade e a incerteza de um dia atrás do outro? Que humanidade pode persistir nessa multidão de ignorados, que apenas conhece as costas e a indiferença dos que passam por eles e desviam a cara?

Que humanidade afinal persiste nestes dois lados da barricada? O lado dos que ficam do lado de fora e o lado dos que ficam do lado de dentro, mas que não se olham.

Naquele caixote de lixo cabe também o homem que resgatou o bebé. Os dois, naquele momento, resgatados de si mesmos, resgatados da sua invisibilidade. Apenas um mais nu do que o outro.

O caixote do lixo de Santa Apolónia é um território imenso onde cabem muitos, onde cabem todos, e onde também se joga a humanidade que tantas vezes falha, que tantas vezes falta, que tantas vezes se ausenta ou se faz ausente.

Naquele dia, um bebé, uma jovem mulher e um homem, por caminhos tortos, mas se calhar por linhas direitas, foram resgatados à desumanidade que transportavam de formas diferentes. À desumanidade de parir na rua, à desumanidade de nascer na rua, à desumanidade de viver na rua. À desumanidade de todos os que atravessam a cidade como se a cidade não fosse também esse território de um nascimento atirado ao lixo, de uma juventude atirada ao lixo, de uma vida por dentro do lixo.

A questão é que o lixo daquelas vidas também é o nosso. A questão é que nos contentores da cidade cabem tantos e haverá sempre lugar para mais.

A única singularidade desta história é a de que ela sofre de um problema atual: só se tornou visível ao passar pelos écrans, pelas notícias, pela visibilidade dos media.

Fora de tudo isto por onde a realidade é hoje filtrada e tornada real, persiste um exército de esquecidos, de transparentes, de ignorados, uma reserva enorme de desumanidade e, por dentro e por fora de tudo, um lugar no lixo, num contentor, num qualquer lugar esquecido que estará sempre lá quando toda a atenção mediática se esmorecer no imenso barulho da cidade e de nós mesmos.

 

Raquel Gonçalves escreve
à segunda-feira, todas as semanas