A propósito de uma pergunta difícil

Os buzicos, esse delicioso termo madeirense para designar crianças, têm a mania de fazer, aos adultos, perguntas difíceis. Há dias o meu neto, naquela de ser curioso com os seus cinco anos, perguntou-me, num restaurante aqui de Luanda, porque razão chamam prego àquele pedacinho de bife encaixado dentro de um papo-seco que, para dizer a verdade, também não sei porque se chama assim. Francamente fiquei baralhado com a pergunta que, na altura, não teve resposta. E teria, igualmente, ficado baralhado se ele me perguntasse porque razão se chama “garoto” ou “chinesa” a um copo, ou chávena, de leite com café, que, por acaso, em Lisboa até se chama “meia de leite”, ou porque se chama, no Porto, “cimbalino” a um café, (acho que tem a ver com a marca da máquina de onde se tira) ou se chama bitoque a um bife com um ovo a cavalo, prato que, sempre que peço, fico receoso a pensar “espero que o bife esteja bem morto, não vá fugir com o ovo na garupa!!! Mas voltando ao prego.

Como hoje em dia se diz que o Google tem tudo, lá fui eu, ao dito, quando cheguei a casa, ver as origens de tal designação. Entre várias definições e estórias que por lá descobri, uma chamou a minha atenção e porque gosto, também, da atenção de quem lê estas linhas e de provocar um sorriso, que a vida está difícil, ela aqui vai. Com mais vírgula, menos vírgula, esse minúsculo sinalzinho encolhido, mas perigoso, que é capaz de mudar o sentido de qualquer frase.

Dizia o texto que, um dia, e este um dia nunca diz se há muito se há pouco tempo, um cozinheiro, certamente não um daqueles a quem chamam pomposamente “chef”, se atirou a um pedaço de carne, crua, está bem de ver, batendo-batendo-batendo com um maço de cozinha, daqueles que de um lado são lisos e do outro têm uma espécie de dentes e fazia-o com quanta força tinha, mas o bife não cedia. Farto, já furioso e com o braço a doer, acabou por gritar, para que toda a cozinha o ouvisse: “ou me enganaram, ou sou eu que estou enganado, mas isto mais parece carne da ponta dos cornos do que lombo ou alcatra. Isto não vai nem a martelo. É mais duro que um prego”. E pronto. Ficou “prego” para sempre, tal como acontecia nos meus tempo de juventude, se um colega dissesse, por exemplo, que estava calçado com “pantufas”, logo passava a ser o “messier pantufles” ou se caísse na asneira de dizer que a fruta tinhas “moscos” logo passava, até ao fim dos seus dias, a ser o “mosco”, ou o “calopata” por se ter enganado, numa aula de História, no nome de Cleópatra, a mais célebre das governantes do velho Egito.

E agora estarão vocês, e com toda a razão, a perguntar a razão deste arrazoado como crónica. Pois bem, para tudo há sempre uma razão, mesmo que não haja razão alguma. É que hoje, dia 8 de Novembro, é o Dia Europeu da Alimentação e da Cozinha Saudáveis, data lançada pela Comissão Europeia e que pretende encorajar uma alimentação saudável nas crianças, a fim de travar o actual crescimento da obesidade infantil. Não pretendo saber se um “prego” é, ou não, uma das tais comidas saudáveis sobre as quais, volta e meia, os especialista mudam de opinião e o bom passa a ser mau e o mau é do melhor que há mas, a esta altura, já ia um prego, com uma bem gelada que, em abono da verdade, como se diz na Ilha… “até sabe”…

Bom apetite.