O silêncio do escritor

Hoje não tenho nada para dizer, nenhuma história para contar, nenhum sentimento para expor, mas isto não quer dizer que esteja morto, antes pelo contrário, estou aqui, cheguei agora mesmo de viagem e por mais que o vazio da chegada me faça pensar na morte o certo é que ainda não morri. Estou vivo. O meu corpo ocupa espaço. Pertenço a este lugar e, por isso, posso falar. E também posso ficar calado.

É um mau arranque para uma crónica, eu bem sei, mas às vezes não há nada a fazer, meus amigos, não há mesmo nada a fazer. Tudo que digo assume uma dimensão onírica, como se estivesse a fazer uso de uma língua fantástica, com origem na parte de trás do tempo ou no avesso da terra, uma língua cujas palavras terminam em forma de estiletes e parecem aranhas em movimento.

E então acontece que não me oiço. Falo, mas não me oiço. Por mais verdadeiro e sincero que seja, não me oiço. As palavras, ao serem pronunciadas ou escritas, transformavam-se num tipo de energia desconhecida. Queimam-me a língua ou os dedos, engolem o silêncio, apagam a luz. As palavras são um poço sem fundo que devora estrelas dentro de mim.

E sendo assim é provável que nunca tenha dito nada de especial. Porém, sinto-me livre sempre que escrevo, porque a escrita – já o disseram e eu repito – é o lugar solitário onde eu arranjei um mundo inteiro só para mim e, por outro lado, também sei que por mais que viva a minha vida será sempre uma obra inacabada. Ou seja, não tenho nada a perder.

De repente ponho-me a cismar em coisas à toa e vem-me à memória a imagem de um indivíduo a fumar, um velho horrível que conheci em África, com um cigarro estrangulado entre o indicador e o médio da mão direita, a cinza a crescer rapidamente, prestes a despenhar-se. Ao ver aquilo pensei que já tinha lido algures uma descrição igualzinha, ou seja, um cigarro estrangulado entre dois dedos, com a cinza a crescer depressa e quase a cair. Depois também pensei que muito do que magico todos os dias já foi dito e descrito e encontra-se agora encarcerado num livro que ninguém sabe onde está.

– Quero falar consigo – disse eu ao velho, muito sério e grave, porque o que tinha para lhe dizer era de facto muito grave e sério.

Ele apagou o cigarro e pôs-se a cofiar as barbas longas e acinzentadas enquanto me ouvia, eu a falar coisas sérias e graves, os seus olhos cada vez mais doentes e venenosos, eu a falar e ele a dizer em murmúrio frio:

– Há coisas nas quais não podemos reparar…

Eu continuava a falar e ele continuava a responder:

– Há coisas nas quais não podemos reparar…

– Só o diabo é que não pode reparar nessas coisas! – declarei, por fim.

Pois é, hoje não tenho nada para dizer, nenhuma história para contar, nenhum sentimento para expor. Tudo o que digo surge desconjuntado, vazio como a morte, sem sentido, coisa que me faz lembrar uma peça de teatro a que assisti há muitos anos, em que uma das personagens, um rapazinho, dizia ao avô quando este se punha a contar-lhe a história da sua vida:

– Una as pontas, avô, una as pontas!

E o avô respondia:

– Como posso unir as pontas, se nada disto aconteceu assim?.