As malas de quem tem de (v)ir

Levam a vida dentro da mala: são roupas e retratos, pedaços das casas que ficam à espera, ilusões de lugares-outros, onde ainda haja esperança pendurada nas nuvens. Levam o passado e o vazio do que há de ser. Levam a vontade de ir, de passar a vida num qualquer país do mundo, e voltar, ao lugar do princípio, com o coração em festa.

As malas dos migrantes – os que vão e os que chegam – são, então, lugares de memória. Transportam o que é preciso para começar outra história, mas transportam, sobretudo, essencialidades, isto é objetos fundamentais para a sobrevivência noutras paragens, coisas de dentro, daquelas que só o coração dá valor: o retrato da mãe, o cheiro da gaveta onde se guardava a roupa, um livro, o perfume de um lenço, a imagem protetora de um qualquer santo.

As malas são o símbolo das viagens, representam as coisas perdidas, as pessoas deixadas no cais, os abraços tatuados a lágrimas de fogo, no peito de quem parte e no peito de quem fica. Nos dias que correm, porém, há gente que chega (quando chega) sem malas: os que fogem da guerra, os que enfrentam o mar, os que arriscam a sua vida e a dos seus, na tentativa de salvação. Hoje, há muitos migrantes sem mala, aqueles últimos de que fala o Papa Francisco, no sexto aniversário da sua visita a Lampedusa, em julho deste ano: «São os últimos enganados e abandonados a morrer no deserto; são os últimos torturados, abusados e violentados nos campos de detenção; são os últimos que desafiam as ondas de um mar impiedoso; são os últimos deixados em acampamentos de acolhimento».

A mala ganha, então, a dimensão do corpo – sulcado, gretado, rasgados pelo fogo que abre no coração a invenção do infinito.

Que histórias guardarão essas malas de carne? Que lágrimas? Que esperanças? Que (in)futuro?

Todos os que partem da sua terra levam a vida dentro da mala, mesmo quando ela não existe. Cabe a cada destino (a nós, portanto, também) ter um abraço à espera de quem chega.