Acreditar em unicórnios

Tenho os pés assentes no cimento do quintal e a cabeça voa por cima da casa. Não sei bem que idade tenho, mas recordo que são ainda os dias iniciais de qualquer coisa por vir.

Há uma forma de sobrevivência que estava lá deste o início. Uma espécie de fuga que me permitia enfrentar os dias por fora e o sentir por dentro.

A casa estava sempre cheia de miúdos, de barulhos, de quotidiano. A casa, na verdade, era demasiado pequena para a vida que nela existia. Não havia propriamente lugares a salvo do barulho do mundo. Talvez por isso tenha aprendido essa espécie de fuga para dentro. Os livros também ajudavam. Nada como a ficção para ensinar o caminho mais curto para os mundos paralelos e para a salvação por dentro deles.

Mas antes da teoria, estava o sentir. Única forma de aprender. Primeiro sente-se e depois, mais tarde, descobre-se que a explicação de tudo já existia.

Na verdade, já estava tudo naquele primeiro livro. Uma história de um unicórnio, um ser imaginário por excelência, mas que pode condensar todas as coisas que são capazes de nos salvar o presente e o futuro..

Na verdade, não há vida sem uma dimensão de crença, sem essa dimensão de crença em unicórnios, por exemplo. Às vezes, é preciso acreditar nas coisas impossíveis. Às vezes, essa é mesmo a única forma de sobreviver ou de viver.

Acho que sempre acreditei nas coisas impossíveis. E algumas delas afinal eram possibilidades. Outras nem tanto. Mas enquanto o movimento de acreditar foi possível, outras coisas por dentro dele também o foram. A felicidade, por exemplo.

A vida não é uma linha constante e sem sobressalto. A vida é toda ela um movimento de crença.

Talvez tenha aprendido isto com os livros, mas não seria justo deixar de fora o meu pai. O meu pai que adorava contar histórias fantásticas e que, à força de as repetir, acabava por acreditar nelas. O meu pai que tinha uma fé imensa na vida e numa certa imortalidade. O meu pai que se recusava ir a médicos, esses destruidores de crenças e de sonhos. O meu pai que acreditava poder afastar a morte se não soubesse das suas múltiplas maneiras de se fazer concreta.

Anos mais tarde, ainda agora, também eu acreditei que se pode ignorar a morte e acreditar na possibilidade para lá da ciência e da medicina.

É incrível que chegamos sempre aos sonhos que nos constituíram. Os unicórnios apenas mudam um pouco de forma, um pouco de história, um pouco de tempo.

Mas continuam lá, nesse instante em que assentamos os pés no cimento quente, abrimos o livro e acreditamos com todas as forças que tudo por ser verdade.

E é, afinal, nesse instante, nessa suspensão do tempo e da verdade, que podemos ser imensamente felizes, ou concretamente felizes.