Máximas populares

Sempre achei graça a provérbios e adágios populares. Recorremos a eles com frequência e cremo-los sábios porque feitos da experiência acumulada e passada de geração em geração. Parecem-nos sempre adequados pela simples razão de os termos para cada situação e para o seu contrário.

Por exemplo: motivamos uma ação com “querer é poder” ou encorajamo-nos a ultrapassar a hesitação, um receio ou timidez com “quem não arrisca não petisca”, mas, se a coisa dá para o torto, logo justificamos com “quem tudo quer tudo perde” e até criticamos a ousadia de arriscar concluindo que se “foi com demasiada sede ao pote” ou que se “deu um passo maior do que a perna”, enquanto o medroso ou preguiçoso que não teve a ousadia de avançar se regozijará por ter ficado quieto pois “o seguro morreu de velho”. Ainda na área dos contrários, encontramos: “devagar que tenho pressa” ou “devagar se vai ao longe” e para, em oposição, criticar a lentidão: “quem muito dorme, adormece-lhe a fazenda”. Ou, de um lado: “gasta e dá, que deus mandará” e por outro: “quem dá o que tem, a pedir vem. Ou ainda: “queres ver o porvir, olha o passado” e, por oposição, alvitra-se que melhor é esquecê-lo pois “águas passadas não movem moinhos” ou “para a frente é o caminho”. No que toca a repastos também não faltam máximas para satisfazer todos os gostos e afirmamos que “quem bem ceia bem dorme”, mas para os defensores da frugalidade fácil será contrapor que “de boas ceias estão as campas cheias”.

No capítulo da generosidade temos a sentença: “faz o bem sem olhar a quem” contudo, logo outra nos recorda que talvez seja conveniente ver a quem damos bens ou confiança porque “se dás o dedo ao vilão, tomar-te-á a mão”. Em questões de generosidade, nem Deus traz coerência porque, se é magnânimo quando “dá o frio consoante a roupa”, é cruel ou, no mínimo desatento, quando “dá nozes a quem não tem dentes”. E para que o crente não se fique pela espera da ajuda divina, defendendo que “a quem Deus promete não falta”, bom será que alguém o avise que “Deus dá as nozes, mas não as parte” ou que “Deus ajuda quem trabalha: é capital que não falha”, pois só “a perseverança tudo alcança”.

Quase todos os rifões contam detalhes da história da vida material e espiritual do povo que as criou, com humor e sentido crítico, baseado nas suas crenças, vícios e virtudes, e continuam a ser repetidas e entendidas no seu pleno sentido mesmo quando se reportam a vivências ancestrais caídas em desuso. Por exemplo: “a cavalo dado não se olha o dente”, “o olho do dono é que engorda o cavalo” ou “mais quero asno que me leve do que cavalo que me derrube” levam-nos a épocas em que esses animais eram usados em transações ou como meio de deslocação. Se bem que a nossa realidade seja outra, o seu significado continua válido e por isso os usamos, mesmo que os cavalos que hoje nos transportem sejam os da potência dos motores dos nossos automóveis.

Alguns ditos são exclusivos de uma cultura, outros são transversais a várias línguas. Importamo-los, exportamo-los, traduzidos à letra ou adaptados, e outros novos vão surgindo. À maioria deles perdemos o rasto das suas origens, algumas bem distantes, mas que para nós fizeram sentido e connosco ficaram. Outro tanto terá acontecido com os que daqui partiram.

E por aqui me fico, até porque “quem muito fala pouco acerta” e também porque não quero cansar os meus leitores, pois sempre me disseram que “vale mais ser desejado do que aborrecido”. Contudo, imagino que não resistirei a voltar ao tema numa ocasião futura.