Claudicar na boa educação

Na rua, no autocarro, no restaurante, na missa, numa festa de aniversário de um colega da escola... são apenas alguns exemplos dos locais onde fui repreendida pela minha mãe por estar parada, absorta, a olhar fixamente para uma pessoa ou uma situação. Nessas alturas, ela puxava-me pelo braço para um canto e ralhava comigo em privado, sempre em privado, e explicava que ficar a encarar é muito feio e uma falta de educação. Terminava dizendo que se me apanhasse outra vez em ‘estado catatónico’ punha-me de castigo. Foi graças à sua forma exagerada de se expressar que eu aprendi o que era a catatonia e muitas outras palavras.

Mas voltando ao ‘encarar’, a sua definição indica que é o ato de olhar de frente, de fixar a vista em, de fitar. *

E foi exatamente isso que eu fiz por longos minutos no passado fim de semana, apesar de todos os esforços pedagógicos da minha pobre mãe.

À minha frente, uma jovem caminhava coxeando e, a princípio, ainda fiz um esforço para desviar o olhar mas depois o meu interesse acendeu-se como as luzinhas das árvores de Natal. Quando reparei que tinha uma perna mais curta do que a outra, tive pena dela e pensei nas inúmeras pessoas que sofreram preconceito com a associação histórica à personagem do Diabo, também ele coxo. A cena tornou-se ainda mais magnética quando ela se apoiou no namorado, cuja expressão e caracóis dourados faziam lembrar um querubim barroco. Em termos de simbologia, pensava eu, não podia ser melhor. Estava distraída com estes pensamentos inúteis quando o meu olhar fixo e inconveniente acabou por chamar a atenção do casal e ambos se viraram na minha direção. (É capaz de ser mesmo verdade que conseguimos ‘sentir’ quando alguém tem os olhos postos em nós.)

Como não estava com os óculos de sol, não tive como disfarçar e achei que com um sorriso a coisa se compunha. Mas não foi lá com sorrisos. Os jovens desviaram o olhar e seguiram caminho, com os passos dele perfeitamente coreografados com o cambalear dela.

Ela coxeava mas fui eu que claudiquei. Se a minha mãe estivesse ao meu lado, teria ficado roxa de vergonha e talvez tivesse deixado o meu braço um pouco roxo também. Seria bem merecido.

 

* Dicionário Priberam da Língua Portuguesa https://dicionario.priberam.org/encarar