Um Mundo de tias velhas

Não gosto de ocupar estas crónicas com o quotidiano, com a política, com a chamada atualidade. Mas, às vezes, o mundo obriga-nos a isso.

Nestas duas últimas semanas, dois acontecimentos fizeram-me recordar uma frase de umas tias do meu pai. Aquela espécie de tias que já nasceram velhas, ou que sempre as conhecemos velhas. Não só por fora, mas sobretudo por dentro. Daquelas que olham para o mundo e que sentenciam que ele está perdido. E nunca é perdido por coisas graves, como uma guerra, uma injustiça, uma dessas infâmias que atravessam a História.  O perdido das tias é sempre aquela moral doméstica, a sentença de café, a crítica barata, preconceituosa, superficial. Uma espécie de moral do Facebook antes do Facebook.
  Na verdade, o Facebook e as redes sociais no geral estão povoadas de tias velhas, de moral bolorenta, de juízos preconceituosos, de conversa com a profundidade de um prato. Dos rasos!

A primeira indignação foi à conta de um dos cartazes exibidos no Madeira Pride, onde se lia que Deus era mulher e lésbica. Saltaram os da moral e dos bons costumes, provavelmente os crentes da missa e os machos.  Todos cheios de certezas sobre quem é Deus, ou de como deve ser Deus. Ignorando o verdadeiro sentido de Deus. Digo eu, que nem vou à missa, mas que, a acreditar em Deus, seria num Deus total, que não deixasse nada, nem ninguém na margem.

Entre pecado e ofensa, todos se encavalitaram na sentença do mundo perdido, do pecado dos infernos e de um preconceito mal disfarçado. Tudo gente que, sem saber, legitima a existência de cartazes como aquele ao qual atiraram a primeira pedra.  Quando o que deviam questionar é porque razão tem Deus de ser macho, branco e heterossexual? Sim, porque razão, teológica ou racional, Deus não pode ser mulher, ou até lésbica? Ou negro como o Morgan Freeman do filme?

Não, esta malta não consegue ir além da mediocridade que anda de braço dado com a intolerância.

Passada uma semana, nova polémica e novo exercício de mediocridade. Tudo em torno da saia do assessor de Joacine Katar Moreira. Tudo gente que parece acreditar que o hábito faz o monge. E, se calhar, atá faz, até já há estudos que o garantem. Mas a intolerância também faz quem a pratica. Mais ainda, os assuntos aos quais resolvemos dar importância dizem muito mais do estado perdido do mundo do que as saias e a sexualidade de Deus.

O que me surpreende (se calhar não devia) é o calor e o empenho que se coloca nestas questões, o quanto de submerso da nossa natureza deixamos vir ao de cima, o quanto da intolerância coletiva se revela nestes momentos. O foco que damos a coisas laterais, deixando de lado o essencial.

Um mundo perdido de tias velhas é um mundo que se recusa a avançar, que recusa pensar para lá da soleira da porta. No fundo, continuamos a olhar por detrás dos muros e dos tapassóis. Bolorentos, bafientos, a olhar o mundo na sua superfície e a deixar escapar o seu sentido mais profundo, as lutas que valem a pena, as verdadeiras questões que nos deviam suscitar paixão ou raiva.

Não deixamos o limiar das tias velhas e pensamos que o mundo se perde pela falsa moral que apregoamos, pela intolerância que exercemos, pela leviandade de tudo o que é fácil. E é tão fácil atirar às saias e a Deus. Difícil é atirar a nós mesmos. A proximidade é o código postal da má pontaria. Meio caminho andado.