Como quem reza

(ainda a propósito de D. Tolentino Mendonça)

 

Porque há dias em que a boca nos sabe a cinzento, é fundamental saber onde ir buscar a esperança. Para isso – e o Papa Francisco deu-nos essa lição – temos, à mão do coração, o poder redentor da poesia que   Tolentino Mendonça, o poeta-cardeal, nos ensinou a desvendar.

No mundo líquido de Zigmunt Bauman, em que as relações têm a forma da água, em que a felicidade é etílica, em que tudo é fluido e volátil, a poesia é efetivamente essencial. Só ela  e Deus , que é a verdadeira essência da Poesia, são capazes de atribuir sentidos a esses fragmentos de vida em que transformamos o nosso tempo, como se cada verso nos revelasse uma pista para atravessar o deserto. O da nossa contemporaneidade.

Talvez esteja na hora de nos embriagar de palavras, as bonitas, as que trazem esperança e libertam as dores que roem o (nosso) peito – a solidão, apesar de tantos amigos, a indiferença, apesar de tanta informação, o vazio, apesar de tantas compras. Mas talvez esteja na hora de aprender também os silêncios. Não há poesia sem silêncio: o que separa um verso do outro, o espaço que as palavras não ocupam, o que resulta na sede de infinito. O silêncio é o som do voo do pássaro, a música do vento que passa nas cordas das árvores, o parto das castanhas, nas tardes de outono. Há de ser isso a poesia: o bater do coração de Deus dentro do coração do homem, o intervalo entre o som e o sopro, os fios capazes de unir os nossos nadas a um qualquer Tudo a que José Tolentino chama Deus.

A poesia transforma o instante, eterniza-o. E a forma informe do nosso tempo (e convoco, outra vez, o mundo líquido de Bauman) passa a fazer sentido. A poesia passa a ser, então, um projeto de espiritualidade para os agoras que compõem os nossos desejos.

Precisamos, pois, de poetas – e temos um que é nosso e que é do mundo inteiro – que nos ajudem a reconhecer o caminho de volta, de modo a restaurarmos a esperança que quebrámos, ao virar da vida. Porque há dias em que temos, na boca um travo de coisa final, como quando a festa acaba e a solidão se senta connosco à mesa.

O poeta (o nosso que é do mundo) escreve como quem reza. E é aí que reside o poder salvador da (sua) poesia.