Objetos e memória

O que resta de nós depois de desabitarmos os lugares, os objetos, as coisas úteis, os dias.
Nada revela uma ausência mais profunda do que esses espaços e essas coisas despidas de nós. As mantas, os lápis quietos, os livros ainda com a marca da última leitura, os sublinhados, os óculos sem o olhar. A cadeira vazia. A cama num abandono. Também o sol e a chuva que já não vemos. Que já não vês.
A casa desabitada é o espaço da ausência materializada, concreta, visível. O ausente não é o que já não se vê, mas o que se vê de outra forma. O que se vê abandonado, só, sem uso, sem o movimento da mão e do corpo que lhes davam uma função.
Disfuncionais, todos os lugares da ausência são a própria ausência. Talvez por isso possamos ser atingidos pela ausência como coisa real. Não pelo que já não está lá, mas pelo que resta e que nos atira ao corpo a impossibilidade.
É um território de guerra onde a ferida é possível, onde podemos cair e talvez até morrer, ou viver de outra forma. O que, bem vistas as coisas, vai dar ao mesmo.
Quanto de nós afinal morre com a morte dos outros? Não de quaisquer outros, mas dos outros que sabiam como olhar o que somos. Dos outros que nos davam uma função, que sabiam o nosso lugar no mundo e exigiam que ele se cumprisse.  Afinal a vida é isso mesmo: livre arbítrio, é verdade, mas qualquer coisa mais que nos aciona o movimento e a vontade.
Sem esse movimento, nós e os objetos desabitados somos o lugar da ausência. Perdemos a função em conjunto e já não há regresso, porque nenhuma outra mão substitui a mão que sabia ativar o mecanismo das coisas e o nosso mecanismo particular.
Partilhamos com as coisas um destino comum de incomunicabilidade e disfunção. Os dois abandonados na casa onde a vida foi a possibilidade de um futuro.
E o que fica depois de tudo, o que fica depois daquilo que nos habitava? Não fica muito na verdade. Há sempre o fim de uma respiração que parece ser a nossa.
Não é que tenhamos perdido a capacidade pulmonar, ou outra qualquer capacidade mecânica por onde a vida parece circular. É simplesmente porque somos mais do que essa mecânica. Não habitamos apenas a respiração, o batimento a circulação que parecem explicar a nossa horizontalidade. Habitamos sobretudo essa espécie de alma que os outros são de nós. A nossa alma é sempre os outros. O que nos é exterior e que se faz o nosso verdadeiro interior em espelho.
Sem eles, como refletir o que fomos ou o que podemos ser depois. Na verdade, podemos ser apenas vazio e memória, e a disfuncionalidade por dentro de tudo ou apesar de tudo.
Ainda existe um mapa, mas é um mapa que apenas aponta a ausência e a memória, coisas que se fazem de caminhos esbatidos e de enganos. Já nada é preciso ou conciso. Já tudo é ausência e o que nela não se sustém, nem se revela. Já tudo está em silêncio como as coisas mortas. Já tudo é nada.

 

Raquel Gonçalves escreve
à segunda-feira, todas as semanas